Sábado, 22 de Fevereiro de 2020

Exposições do Oi Futuro trazem diálogo entre as culturas brasileira e japonesa

Fomos ao Rio de Janeiro ver de perto o Jardim Zen de Daniel Arsham e a 'instalação viva' de Makoto Azuma


14/09/2017 às 13:01

Rosiel Mendonça*
rosiel@acritica.com

O circuito de museus sempre é uma boa opção de roteiro cultural para quem está de passagem pela Cidade Maravilhosa. A novidade da vez é a exposição de artes visuais “Outras Ideias”, que entrou em cartaz no Oi Futuro Flamengo nesta semana. Promovendo o contato entre o Brasil e grandes nomes da arte contemporânea internacional, o projeto traz ao País os artistas Daniel Arsham e Makoto Azuma, criadores de obras de larga escala que poderão ser vistas na sede do Oi Futuro e no Aterro do Flamengo até o dia 5 de novembro.

“Acho que a principal característica desse projeto é conectar sensibilidades inéditas ao nosso repertório e possibilitar contato com ideias novas, que a partir de outros pontos de vista nos ofereçam outras fontes de inspiração”, explica o curador Marcello Dantas. Segundo ele, a cultura e a espiritualidade do Japão são os elementos que aproximam as obras que Arsham e Azuma criaram especialmente para o Rio de Janeiro.

Nascido nos Estados Unidos, onde já desenvolveu trabalhos com Pharell Williams e James Franco, Arsham transita entre a arte, a performance e a arquitetura. No Aterro do Flamengo, ele fez surgiu um jardim zen, refúgio milenar de meditação e contemplação, mas que na visão do artista assumiu uma feição contemporânea, sugerindo um diálogo entre o antigo e o moderno.

Por sua vez, o japonês MakotoAzuma se notabiliza por suas esculturas “botânicas”, que se contrapõem à tradicional arte japonesa do ikebana. Ele é o autor das “instalações vivas” que podem ser vistas tanto no Aterro como no instituto Oi Futuro. “Gaibu-fora” e “Box flower” são obras que despertam uma reflexão sobre o ciclo vida-morte a partir da observação da decomposição natural de várias espécies de flores.

Diálogo entre realidades

Para o curador Marcello Dantas, a exposição lança um olhar sobre a cultura oriental num momento em que o mundo anseia por uma “terceira via” para o futuro. “O Ocidente tinha um guia espiritual que eram os Estados Unidos, em cujo modelo nos inspiramos durante muito tempo. Com o Trump e o processo de fechamento da Europa em torno de si mesma, estamos vivendo um abismo civilizacional a partir de duas sociedades que estão ficando avessas ao mundo”, comenta.

De acordo com ele, esse é o momento de olhar para outros mundos como possíveis novos interlocutores. “Um deles é o Japão, que tem como valores a paz, a integração e uma boa dose de sabedoria.No Japão, por exemplo, os budistas observavam a decomposição do corpo – um verdadeiro tabu para a cultura ocidental – como uma forma de entender a morte. Nesse sentido, uma obra como a do Azuma nos coloca diante do momento brasileiro, em que nós abrimos os jornais todos os dias e vemos nada menos que um processo de decomposição, uma autópsia em praça pública”, completa Dantas.

No caso do Aterro do Flamengo, o curador também destaca o potencial que as obras têm de criar pontos de acesso ao nosso interior em pleno espaço público. “Arsham criou um espaço para meditação, talvez uma das coisas mais necessárias numa cidade tensa como o Rio. Ali ele bebe na tradição japonesa dos Jardins Zen e cria uma versão contemporânea dele diante da mais radical paisagem natural da cidade, o Pão de Açúcar. Nesse contexto, ele oferece uma chance de diálogo entre as duas paisagens, a exterior e a interior”, analisa.

* O repórter viajou a convite do Oi Futuro


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