Sábado, 22 de Fevereiro de 2020

Primeira vez em Parintins: um reencontro com a minha identidade


24/06/2016 às 17:27

Laynna Feitoza

Não tenho memória biônica. São poucos os momentos da minha primeira infância dos quais me recordo bem. Mas lembro o que acontecia com a capital amazonense quando eu tinha por volta dos seis anos de idade. O cheiro de churrasco na casa dos amigos da família inebriava. A cerveja e a piscina – de plástico ou azulejo – eram presença obrigatória. Porém, não mais do que as toadas– músicas que fazem a trilha da apresentação dos bois-bumbás – “Garantido Sou Eu”, do Garantido, ou “Pesadelo dos Navegantes”, do Caprichoso, assumindo as rédeas de qualquer domingo ensolarado.

O calor naquela época ainda era brando por aqui. Os impactos do aquecimento global ainda não davam o seu recado. Mas a febre aqui era outra: os bois de Parintins, cultuados em quase cada casa da Cachoeirinha – bairro onde morava na época. Os aparelhos de sons gigantescos da minha mãe, sempre devotada ao touro negro, não tocavam só as toadas do seu azuladinho querido: o contrário, Garantido, também se fazia presente na esteira de CD’s empilhados na sala. Mas não só eles: também tinha Raízes Caboclas e Canto da Mata.

Por ser Caprichoso, a predileção da minha mãe pelo boi azul ecoava amplamente em nosso lar. E é claro que as primeiras referências musicais que tive de toadas vieram na voz de Arlindo Jr. – um ídolo imortal para mim, mesmo estando ao lado oposto do meu. Sim, oposto, porque a primeira vez que minha mãe me perdeu na vida – ela costuma dizer – foi quando me “bandeei” para o lado de lá. Para o lado do tourinho branco. O folclore nasceu aí, em mim.

Naquela época eu não entendia bem a riqueza que há na sonoridade das toadas. Não sabia nada sobre os naipes dos instrumentos, ou sobre quantos ritmistas eram necessários. Mas lembro que ficava muito intrigada com as letras. Com as lendas e animais transmutados, com os exímios protetores da floresta. Tentava, aos seis anos, montar tudo aquilo na minha cabeça. Mas só aos 23 anos, quando enfim conheci o Festival de Parintins, o quebra-cabeça ficou pronto. Mesmo tão tarde, época em que eu lamento a ausência de toadas ressoando nos lares manauaras. Mas nem tudo – e nem tanto – ficou para trás.

Costumo ouvir com muita frequência que as toadas são "exageradas", "cafonas", “coisa de índio”. Um dia, mesmo que um dia apenas, cheguei perto de pensar assim. O tempo passou, comecei a trabalhar com jornalismo cultural e minha visão estreita se abriu. A informação que eu ganhara me lampejava os conceitos. Lembrei do meu passado e dos domingos de sol ao som de boi-bumbá. E comecei a alimentar o desejo sincero de conhecer aquele festival a céu aberto sem julgamentos e conclusões.

Ao pisar na ilha Tupinambarana, esse “preconceito” foi afogado lá nas profundezas do Rio Amazonas, aquele manto de águas majestosas que circunda a cidade de Parintins. Graças a Deus que foi afogado a tempo. Eu, que me julgava autossuficiente por gostar de metal, indie e música clássica, não fazia a mínima noção do quão ignorante era. Eu não fazia a mínima noção do que estava por vir.

Fui a Parintins a trabalho, para atuar na cobertura do caderno especial de A CRÍTICA, no ano passado. Chegamos de avião uma semana antes da festa, fomos para a casa onde ficamos hospedados – perto do Bumbódromo – e logo nos misturamos para nos direcionarmos aos polos onde as pré-celebrações dos dois bumbás aconteciam. Fui, então, com minha amiga e repórter Lorenna Serrão em um dos ensaios do Garantido.

Ela, empolgadíssima para me mostrar tudo – já que eu estava indo pela primeira vez – conseguiu causar em mim o que pretendia. A Batucada, meus amigos. Eu só me lembro da Batucada. Eu estava em transe. Nos dias de trabalho que se sucederam lá, em que dormíamos por volta das 2h/3h e acordávamos 7h/8h, a rotina me deu a oportunidade de chorar no galpões dos dois bois. Porque é lá que você se depara com a verdade. Vê como tudo nasce. Apertar as mãos, sujas de cola e tinta, dos artistas plásticos que constroem as alegorias é indescritível. A vontade é apertar e não limpar nunca mais.

A cola e a tinta daquelas mãos são o sangue que eles injetam no curupira, no bicho-folharal, nos jumas e iaras a caminharem a sua poesia ali na arena. O que mais me emociona é pensar que aqueles artistas plásticos não possuem nenhum estudo avançado adquirido no exterior. Aliás, vício deplorável esse que nós temos de achar que tudo o que é bom vem de fora, não é? Na verdade, tudo o que é bom vem de dentro. De dentro do peito. Assim como o talento dos artistas de todos os segmentos que fazem o Festival. É dom puro. 

Os dias da semana se tornavam poucos e o festival se aproximava. Parintins era vermelha e azul. E o amor do público por seus bumbás choca qualquer cético. Em pleno sol de quase 40 graus, os torcedores dos bois começavam a formar dias antes o anel humano ao redor do Bumbódromo, na fila de espera para cativar o melhor lugar na festa. Havia tudo – as pessoas levavam a extensão dos seus lares para a fila de espera. Vi comida, bebida, até travesseiro. Mesmo quem não levava não se dava por vencido: era comum ver “tendas” feitas de sacos plásticos presos ao corrimão da fila, tentativa dos torcedores de fugir do sol.

Foi então que, assim como hoje, o primeiro dia do Festival chegou. Terminamos nossas matérias e fui para a casa por volta das 15h, já maravilhada com os tambores rufando nos ensaios – a nossa redação fica nos domínios do Bumbódromo. Fui tomar banho e me vestir e, quando caminhava já na rua da arena, me sentei pra comer um hambúrguer em uma das lanchonetes que ficam nos entornos do grande palco. Sentar ali e contemplar o público que ama boi, comemorando, cantando, brincando e desde já se recusando a falar o nome do boi contrário foi, de fato, compreender a oração bradada por aquela festa.

A festa começou. Imaginei logo que, por conta dos 50 anos de Festival comemorados na época, o Garantido fosse cantar “Vermelho”, toada inenarrável de Chico da Silva, que fez sucesso Brasil afora. Essa toada particularmente me emociona: por eu ter os cabelos vermelhos, sempre que saio do Amazonas para ver amigos de fora eles cantam, brincando, essa toada. Em referência tanto à minha “identidade capilar” quanto às minhas origens. Imaginei que fosse chorar só nesse momento. Mas chorei com os dois bois. Chorava em tudo - desde o rodopiar da sinhá até a dança do pajé. Desde o "Ave Maria" de David até a "Terra Mãe" de Sebastião. Era animalesco. E era impossível se firmar em um boi só.

Os três dias foram felizes. Ali, vi ocas se transformarem em pássaros. Vi barcos reais navegarem sobre o chão de asfalto. Vi cobras grandes serem engolidas e terem seus pescoços cortados, jorrando sangue. Vi terços serem rezados na performance de cada item oficial. Vi ex-big brother emocionado, abraçando todas as pessoas do camarote, ao ver as alegorias descerem do céu. Vi amigos fãs de death metal boquiabertos com os ritmistas da Batucada e Marujada. Vi cada toada dar um grito de história e preservação da Amazônia. E não me perguntem como eu vi isso. Para saber, só estando lá.

E lá, é impressionante o quanto o sentido de irmandade se alinha. O bem-querer pelas pessoas aumenta. O quanto nós, jornalistas que temos a oportunidade de cobrir esse monumento artístico de tanta grandeza, nos divertimos apesar de tanto trabalho. O corpo entra em um ritmo frenético, mas você só sente quando você deita na sua cama, já em sua cidade. E tudo o que parece pequeno no nosso dia a dia se torna maior.

Desde o passeio por Parintins no triciclo, até a pauta em que você e seu amigo fotógrafo estão pingando no sol, em frente ao Comunas Bar. É tremer de calor e cansaço, mas quando você olha para o horizonte e vê aquele sol irradiando, sente o quanto o brilho daquele sol ainda é pequeno perto do brilho de toda aquela manifestação folclórica. E só lá você é capaz de cair aos prantos com o seu boi e ser abraçado calorosamente pelo assessor de imprensa do boi contrário - assim como fez comigo a minha nobre colega Marilza Mascarenhas, durante a evolução do Garantido. 

Foi aí então que o Festival acabou. A oração dos índios, brancos e negros terminou. E a minha vida mudou, de uma forma que só quem ama arte e cultura pode mensurar. Costumo dizer que não comecei no folclore bumbá no ano passado. Minha experiência naquela festa teve a responsabilidade de resgatar dentro de mim a menina de seis anos, que ouvia as toadas que a mãe colocava e ficava impressionada, por imaginar o quanto a Amazônia pode ser mágica. E é.

Não julgue o folclore bumbá construído no Norte. Independente de gostar de boi-bumbá ou não, garanto que cada um conhece pelo menos o refrão de alguma toada, de cor. Vá lá ver com os seus próprios olhos aquela festa que alcança dimensões inimagináveis. Viva o que é amar um boi e admirar outro. Viva  e veja o pôr-do-sol mais bonito de todos se deitar pelas águas barrentas. E, se for, observe todo o contexto. Entenda: não são só dois bois. Não é só uma festa. Dali só jorra amor. Ou pode até jorrar o seu encontro consigo mesmo – como aconteceu comigo. Afinal, Parintins é puro significado. E pode te ressignificar inteiro.

As imagens desse texto são de alguns dos melhores momentos do Festival de Parintins de 2015, clicados por nossos fotógrafos de ACRÍTICA

 

 

 


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