Quarta-feira, 03 de Junho de 2020

O ritmo do seu tempo: para que ter certezas?

No artigo desta semana, o músico Abner Viana fala sobre como as transformações sociais impactaram na mudança das estruturas e das formas da música


09/05/2020 às 23:59

PorAbner Viana*
Especial para A CRÍTICA


Todos vocês se perguntarão neste momento (de pandemia): “por que somos obrigados a abandonar nossas certezas?” Bem, se tratando de século XXI e do momento atual, a música, como todas as artes, é apenas o reflexo de sua época. O século XXI é um século de imigrações massivas, mazelas sociais, alta tecnologia em quase todos os campos da ciência, mudanças políticas radicais, bruscas mudanças econômicas, alterações no campo da saúde e entre muitas situações que com a velocidade cibernética, tudo se torna líquido em um minuto dentro do nosso sistema social. 
É o tempo cíclico do desenvolvimento das consciências de tempo, já constatava o sociólogo Norbert Elias (1897-1990) em sua obra Über Die Zeit (Sobre o Tempo). E o quão profundo é o efeito que o ritmo causa na música? Com esse título, refiro-me à metáfora que domina uma determinada época em que toda uma certeza paradigmática (econômico social, política, artística, etc) também muda.
A música, de inúmeras formas, abandonou suas certezas e convicções. Ou seja, abandonou suas estruturas e formas. Aniquilação? Além, é claro, das harmonias imagéticas pré-decifráveis ao ouvido humano. Essa reconfortante hierarquia tonal e a estabilidade do ritmo deixaram de serem “certos”.
No passado, o ritmo parecia ser, durante um longo tempo, algo orgânico e/ou regular, como os batimentos cardíacos que possuímos, e, algo em que “ninguém” poderia interferir. Mas a música, que é o pulso de “entretenimento consumista” deste século, em tudo há de questionar-se. Todas as certezas esfacelaram-se? Ou o nosso entretenimento musical não é mais questionável?
Ritmo é uma palavra que pode representar na vida humana uma série de símbolos e/ou ações, situações e representações alegóricas ao pulso, à velocidade, à vibração, à respiração, incluindo às ondas que se formam sobre a superfície das águas (em estado de tormenta ou calmaria). É aí que nos encontramos em um momento no qual toda a arte muda e modifica tudo aquilo que afeta a própria vida, a “oportuna” arte.
Em uma época na qual os ritmos internos da humanidade se veem afetados pelo mundo exterior, a velocidade do mover da vida muda sem suspeitas no nosso cotidiano. 
Se anteriormente o pulso cardíaco determinava o ritmo, neste momento vai com toda a excentricidade humana para nos tornarmos o “em nada somos exatos”. Nossas adequações às problemáticas da vida são constantes de geração em geração. 
Pensando nisso, e, não por casualidade, indico a discografia para sua apreciação musical: Le Sacre Du Printemps (A Sagração da Primavera), composição de Igor Stravinsky (1882-1971), que em numerosos aspectos é ainda considerada a obra crucial do século XX. E em 1913, foi a estreia da obra com o subtítulo de Quadros da Rússia pagã (dividida em duas partes), é um balé coreografado por Vatslav Nijinsky (1889-1950), produzido por Sergei Diaghilev (1872-1929) para a sua companhia de balés russos e estreou no Théâtre des Champs-Élysées (Paris, 29 de Maio/1913). 


Sergei Diaghlev, Vatslav Nijinsky e Igor Stravinsky (Foto: reprodução)

Com inovadoras e intricadas estruturas rítmicas, os diversos timbres orquestrais e o uso de dissonâncias harmônicas a todo o momento. Não à toa, que o compositor e maestro Leonard Bernstein (1918-1990) disse certa vez (em 1973), quando regia a obra: 
“Esse papel tem sessenta anos de idade... Também tem as melhores dissonâncias que alguém poderia ter imaginado e as melhores assimetrias e politonalidades já feitas, seja qual for o nome que você lhe queira dar.” 
A reflexão é: A música que você consome te representa hoje enquanto indivíduo social? Como? Você tem refletido sobre o seu gosto musical? Tem pressa no que ouve? Vale a pena continuar escutando as mesmas coisas, apenas por escutar? Permita-se!

 

     *Natural de Manaus-Am, Abner Viana é Músico (Saxofonista/ Clarinetista) e pesquisador. Possui Mestrado em Música pela UEA. Já trabalhou com diversos artistas nacionais e internacionais tanto no Brasil, Europa, bem como na América do Sul. 


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