Segunda-feira, 30 de Novembro de 2020

Os ‘Lugares que o dia não nos deixa ver’

No artigo da semana, João Fernandes fala sobre as diversas formas de habitar a cidade, e as 'construções' que vão transformando o lugar


26/10/2020 às 18:32

João Fernandes* 

A cidade em sua materialidade plasmada em ruas, praças ou jardins, no sentido estrito de seu planejamento e construção, por exemplo, pode ser lida como um lugar, sem significações simbólicas relevantes para os sujeitos, que não estabelecem com ela qualquer vínculo relacional. É a partir do habitar a cidade que ela passa a ser significada e pode ser transmutada e transformada pelos sujeitos que ali transitam e o (res)significam a partir de suas vivências particulares e sociais. Um lugar que nunca é um dado natural e é sempre construído.

Podemos pensar ainda sobre este trânsito entre os lugares que são resultantes das ações dos sujeitos, como um ato socialmente compartilhado. Daí se criam permissões e interdições, tácitas ou explícitas, conflitos e harmonizações que se inserem nas disputas de poder pelo discurso significativo e hegemônico do lugar.

Então, se fazem escolhas, se determinam memórias e interpretações sobre as vivências ali realizadas. Esses lugares, portanto, resultantes de um campo de disputas, interações, barganhas, conquistas e derrotas.

Os Lugares, apesar de vividos individualmente pelos sujeitos, vão se configurando num lugar comum, compartilhado, possibilitando uma referência cultural que possa significar o coletivo e não apenas o sujeito individual. O lugar, em sua ampla acepção, depois de significado, pode remeter a uma ou a várias identidades, pode constituir-se num lugar de memória.

O Centro Histórico de Manaus abriga seu grande patrimônio cultural e neste contexto acreditamos retomar e dedicar ainda mais amor a nossa Manaus aproximando da população ao centro da cidade e sua história partindo da ocupação dessas arquiteturas que estão no esquecimento.

O Projeto “Lugares que o dia não nos deixa ver”, realizado pelo Casarão de Idéias há 6 anos, tem diversos lugares afetados através de intervenções temporárias que buscam uma troca de ordem entre sujeitos e lugares, desde os menos tangíveis aos mais concretos, e como esses passam a transformar a todos. Realizamos esse projeto por acreditar sempre que nesses lugares existem Histórias, memórias e afetos.

Se pensarmos nas novas necessidades humanas pós pandemia e como essa retomada é um desafio para os futuros gestores, que terão a missão de devolver para a cidade um lugar cheio de possibilidades e humanizados. Espaços público desenhados.

Nós temos o principal, temos tudo isso que merece só esse olhar sensível para potencializar o resgate de nossa gente. Parabéns Manaus pelos seus 351 anos.

 

 

João Fernandes -Artista, gestor cultural e professor universitário. Formado em Gestão Cultural pela Universidade Cândido Mendes, Técnico em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Ceará, graduado em Dança pela Universidade do Estado do Amazonas, mestre em Letras e Artes pela UEA.Professor dos cursos de Graduação em Dança e Teatro e Coord. da Pós-Graduação em Produção Cultural da UEA. Gestor do Casarão de Idéias.


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