Quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2020

Pelo 2º ano consecutivo o País tem uma Miss Brasil negra e há quem deseje o pior a ela


21/08/2017 às 12:03

Por Laynna Feitoza

Histórica. A noite do último sábado (19) não podia ter sido mais histórica. Depois de 30 anos sem elegermos uma Miss Brasil negra e quebrarmos esse hiato no ano passado, tivemos a delícia de ver uma mulher negra coroando outra negra no concurso de beleza mais tradicional do País. A representante do Piauí, Monalysa Alcântara, parecia flutuar no palco em todos os momentos, e demonstrou uma energia e carisma inacreditáveis, além da beleza. Do alto de seus 18 anos, desbancou favoritas com mais idade e mais experiência no mundo miss. Demonstrou segurança, uma passarela enérgica, uma oratória efervescente, e se consagrou a mulher mais bela do País.

Após a coroação da moça, porém, eu não tinha noção do filme de terror que veria nas redes sociais. Pessoas racistas, peçonhentas e sorrateiras alegando que a miss foi eleita apenas para "enfeitar as TV's" com a imagem do "politicamente correto": a de uma negra coroando outra. Pessoas disseram que os jurados só votaram na miss porque o voto foi aberto, e para não passar a imagem de "racistas", dedicaram seus votos à negra cacheada, ao invés de dedicarem à branca de olhos verdes. Houve até quem mostrasse o pior lado de si desejando a morte (veja bem, a morte) de Monalysa para que a segunda colocada, a Miss RS, Juliana Mueller, pudesse assumir o posto no lugar dela e seguir para o Miss Universo. É horrível tentar assimilar quantos racistas temos no Brasil, escondidos atrás das telas de computadores.

(Eis o deplorável comentário)

Vi pelas paragens do Amazonas, em maio, algo estritamente semelhante quando a nossa Miss Amazonas, Juliana Soares - uma mulher negra - foi eleita. Perdi as contas de quantas pessoas usaram a cor da moça para descredenciá-la do título conquistado, e que a atacaram com o ódio clássico do racismo. Entre os comentários, vi coisas como "Ela é negra, e o Amazonas é um estado com maioria indígena, então ela não nos representa"; "Ela parece uma empregada doméstica"; "Esse cabelo duro não vai levá-la a lugar algum"; "O Miss Amazonas não é concurso de gente 'de cor'". Esses comentários vieram de todas as partes do Brasil, mas o que mais chocou foi ver a quantidade deles que veio daqui.

A determinação de Juliana, como uma atleta que não entra em jogo para perder, a levou para um campo de batalha entre ela e o seu íntimo. Perdeu 18 kg em quatro meses. Preparou a oratória e passarela como ninguém. Injetava gratidão imensurável em todos que a apoiaram. Calou-se diante dos críticos, para depois deixá-los sem voz com a mulher que lapidou e apresentou ontem, no concurso nacional. Juliana estava linda, resplandecente.

A Miss AM fez muitas pessoas que a criticaram no início voltarem atrás em suas opiniões e a colocarem em suas apostas. A prova disso é que o público que antes havia humilhado e menosprezado a miss, foi o mesmo que a colocou entre as 15 mulheres mais belas do Brasil e que a consagrou Miss Popularidade. Ver uma menina humilde, sem torcidas organizadas, que tinha mais algozes do que admiradores mudar o curso da história com a sua determinação e conquistar a maior parte dos votos do Brasil é, no mínimo, recompensador.

E é por isso que temos que tomar muito cuidado com julgamentos precipitados. Há quem diga que Monalysa já é a "pior Miss Brasil de todos os tempos". O reinado da moça mal acabou de começar e já estão fazendo juízo de valor do futuro desempenho dela no concurso internacional. Não caiam no erro de subestimar a garota. É muito jovem, mas tem muito mais maturidade de pensamento do que muitos que já vi por aí, de diferentes idades. Dizer que ela foi eleita pelo "discurso vitimista da causa negra" é uma das coisas mais desonestas que você pode plantar no mundo.

Monalysa vem de um dos estados mais pobres do Brasil - sem peso de faixa nenhum, fez um lindo e coeso discurso contra o machismo e a favor da força de vontade da mulher brasileira. Porque ela não pode exaltar a sua negritude em seus discursos? Por vários anos consecutivos negras viram brancas serem coroadas misses, uma atrás da outra. Quando uma negra passa o bastão para outra negra é apologia ao politicamente correto? É preciso respeitar o lugar de fala das pessoas e as suas conquistas. Esse é o lugar de fala da Monalysa e ela pode falar o que quiser. As elites já falaram demais. E cuidado com o que falam da miss. Quando pensarem que ela "já é a pior candidata ao Miss Universo", lembrem-se que ela pode te fazer mudar de opinião. Lembrem-se do exemplo de Juliana.


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