Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2020

Segundos pais: o papel dos padrinhos na criação dos pequenos

A função dos padrinhos e madrinhas existe desde a Idade Média, por meio do batismo na Igreja Católica, mas não se restringe aos dogmas religiosos. Afinal, é fundamental que os pais tenham pessoas para compartilhar as vivências dos filhos, independente de batismo formal ou não


15/10/2018 às 14:04

Laynna Feitoza

A nutricionista Paula Bergonci começou a ler livros sobre maternidade. Ela e o esposo, Bruno Bergonci, também mergulharam nos filmes sobre o tema para saber lidar com o que viria a seguir. Com a criança mais velha, Paula deu o primeiro banho quando ela tinha mais de dois meses – por medo - mas trocava as fraldas desde que era recém-nascida. Bruno começou a fazer o mesmo processo quando as duas últimas crianças – gêmeas – chegaram. O tempo passou, elas foram crescendo e até algumas baladas foram deixadas de lado para um melhor tempo de qualidade com as meninas.

Os laços de amor que ligam as cinco pessoas dessa história, porém, não são exatamente biológicos: o casal compartilha o apadrinhamento de Anabella Hardy, 7, e das gêmeas Beatriz e Lavínia Hardy, de 5 anos. Desse amor, Paula tem boas referências desde muito nova, e ao lado do parceiro busca ressignificar essa relação, pouco evidenciada atualmente pela sociedade. “Tenho uma madrinha que é muito maravilhosa. Sempre foi meio mãe e acredito que, por causa dela, eu valorize tanto o ‘ser madrinha’ e não o ‘só brincar’. É questão de educar, dividir responsabilidade”, diz ela.

Ao lado do marido ela dá banho, troca fraldas, leva ao médico, busca na escola, e incentiva nos estudos. “Muitas vezes as três dormem lá em casa, e hoje o marido até aprendeu a pentear os cabelos cacheadinhos (risos)”, conta a nutricionista, lembrando que também vestem a camisa da advertência, quando necessário. “‘Brigamos’ muito pela alimentação delas. As três têm uma tendência aos doces e esquecem um pouco da comida saudável. A gente tenta ensinar, mostrar que pode ser um pouquinho dos dois”, comenta.

As três garotinhas também confirmaram, como plano do futuro do casal, os filhos. “Elas são nossos assuntos rotineiros nos momentos a dois. Como elas são de idade diferentes, é muito gostoso acompanhar cada fase delas, e a responsabilidade. Elas trouxeram muito disso pra gente. Ser dinda é meu melhor papel nessa vida. É muito incrível ter essa co-participação e minha irmã e meu cunhado inserem muito a gente no dia a dia das meninas”, declara Paula.

(Bruno e Paula abrem mão do lazer do casal para incluir as afilhadas no meio. Foto: Arquivo Pessoal)

Renúncia

Sua segunda afilhada é Lys Lima, de 4. Por ser filha da irmã de Tamyne, a garotinha recebeu amparo “24 horas por dia desde o dia que nasceu até os três anos”. “Era 24 horas comigo direto, porque minha irmã tinha que trabalhar, e como eu estava terminando a faculdade, deixei de trabalhar para ficar com a Lys, de modo que minha irmã pudesse trabalhar – o pai da bebê a abandonou grávida. Hoje ela fica com a Lys e agora eu estou trabalhando. Mas todo dia estou junto dela. Só não mais 24 horas porque trabalho e me casei”, destaca a enfermeira, que ainda assim, se esforça para compartilhar as tardes com a menina e fica com as tarefas de levar as meninas para vacinar e ir ao dentista.

A transformação de Tamyne ao virar madrinha é inegável. “Meu maior sonho na vida é ter filhos e quando as duas nasceram, foi como se tivessem nascido de mim”, comenta ela, lembrando que as pequenas também tem essa mesma consciência sobre o papel da enfermeira, mesmo tão novas. “A maior hoje disse: ‘Madrinha, sabia que tenho a senhora como minha segunda mãe? Te amo muito’. Me defendem com unhas e dentes, não podem dizer a meu cabelo está feio (risos). Sempre falo para as duas que elas não nasceram do meu ventre, e sim nasceram do meu coração”.

Saiba mais

A função dos padrinhos e madrinhas existe desde a Idade Média, por meio do batismo na Igreja Católica, mas não se restringe aos dogmas religiosos. Afinal, é fundamental que os pais tenham pessoas para compartilhar as vivências dos filhos, independente de batismo formal ou não. “Uma tarde no parque, um passeio diferente, um lanche, pode fazer a alegria da criançada e ficar marcado para sempre. Não podemos esquecer que o padrinho é aquele que mantém contato frequente telefonando, visitando e se importando em como a criança está. diz a psicóloga Rafaella Manfroi.

Se os pais viajarem e precisarem que alguém fique com a criança ou pegue na escola, os padrinhos são as pessoas indicadas para isto, segundo a especialista. E no caso da morte dos pais, são os padrinhos quem devem assumir as crianças? “No caso de uma fatalidade dessas, é essencial que os padrinhos estejam dispostos a uma assistência ainda maior, um carinho dobrado, tendo em vista a fragilidade que esta criança viverá”, complementa ela.


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