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Seja livre para escolher o que por no prato

Em evento promovido pela Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (ABIA), time de especialistas debate sobre escolha de alimentos e os hábitos alimentares do brasileiro 23/10/2017 às 15:48 - Atualizado em 23/10/2017 às 15:49
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Nutricionistas e engenheiros alimentares se reuniram para falar sobre as escolhas nutricionais da população (Foto: Leticia Bollini)

Por Juan Gabriel*

São Paulo (SP) - “Na alimentação, não existe alimento bom ou ruim. Alimento ruim é estragado”. A frase da nutricionista, chef de cozinha e diretora da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (SBAN), Márcia Terra soa como um tiro certeiro nas convicções de quem opta por alimentos rotulados como saudáveis nas prateleiras de supermercado. O pensamento ganhou reforço de um time de especialistas, entre nutricionistas e engenheiros alimentares, que estiveram reunidos na última quarta-feira (18) durante um evento organizado pela Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (ABIA), em São Paulo.

O encontro, que teve como tema “Os desafios e escolhas alimentares da população brasileira” levantou debate sobre a questão da vilanização e idolatria de alguns alimentos e seus impactos no estilo de vida do brasileiro. A ocasião serviu também para apresentar a proposta de um novo modelo de rotulagem para os alimentos. A medida é uma tentativa de reeducar a população e incentivar a liberdade individual na escolha alimentar.

“Acho que o nosso grande desafio hoje é fazer as pessoas deixarem de olhar só pro valor calórico e olhassem também para a questão dos nutrientes presentes no alimento”, afirma a nutricionista Vanderlí Marchiori. O desafio é reflexo dos novos hábitos alimentares do brasileiro que anda excluindo determinados alimentos em troca de escolhas “saudáveis”, o que para Marchiori é um grande engano. 

“O grande alimento da moda agora é o coco. Por ser algo natural as pessoas pensam que vão conseguir emagrecer comendo ele no lugar de outros alimentos industrializados, mas se você for olhar, para cada 100g de coco são 400 calorias e 40 gramas de gordura. Não é por isso que ele vai ser vilão, mas dependendo do objetivo a pessoa pode estar se enganando. É preciso saber combinar os nutrientes”, explica a nutricionista.

Mediador do evento, o jornalista Marcelo Tas aproveitou a ocasião para dar um relato pessoal. Segundo Tas, há pouco mais de um ano ele acreditava manter hábitos alimentares saudáveis, mas se assustou com o resultado de exames médicos. “Eu consumia muita fruta, tomava litros de suco de laranja natural por dia e comia frutas secas e pipoca. Por serem coisas naturais, acreditava que aquilo me fazia bem, porém me deparei com o sobrepeso e a hipertensão. Foi então que fui a um profissional e descobri que ingeria muito açúcar da própria fruta, fiz uma reeducação alimentar e continuo comendo frutas, mas de maneira moderada. Em um ano perdi 10 quilos”.

A guerra contra industrializados

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), houve um aumento significativo nos índices de obesidade e diabetes na última década que apontam para 60% e 61% da população respectivamente. Em paralelo a esse crescimento, a consolidação de um mercado “fit” e da propagação de uma alimentação que busca valorizar alimentos de origem natural acabou dando origem a uma guerra aos possíveis causadores desses números: Os enlatados e processados.  

“Quase 60% da alimentação é processada. O mundo passou a ter necessidade  de preparar seu alimento. Ao mesmo tempo, a sociedade tem exigido alimentos mais naturais. O hábito alimentar brasileiro é de muitas etnias, por isso nosso lema é todo alimento é bom, o problema é a quantidade. Até água em excesso mata”, afirma o presidente da ABIA, Edmundo Klotz.

Sem tirar os méritos de alimentos naturais, o  engenheiro alimentar Raul Amaral salienta que os industrializados não devem ser tratados como vilões, mas sim consumidos sem excessos. “Não dá pra generalizar os alimentos industrializados. Por que só questionam o açúcar do refrigerante, dos biscoitos e coisas do tipo? A bananada da avó, doce de padaria, pudim e outros doces caseiros têm o mesmo peso nessa balança. Fala-se de química também, mas tudo tem química, até a banana, só que é uma química natural, mas não deixa de ter seus malefícios se consumida em excesso. Tudo é questão de moderação na hora de comer”, afirma.

Essa polarização entre alimentos amigos e vilões traz conseqüências na questão nutricional. Atualmente, a grande tendência entre dietas é a retirada de carboidrato ou glúten. Segundo Machiori, 40% da alimentação deve ser de carboidrato e ela ainda salienta que não há motivos para vilanizar o glúten. 

“O grande aumento da obesidade na população atual é mais reflexo da compulsão alimentar do que de um alimento em específico. Não se pode culpar um alimento por essa compulsão, muito menos excluir alimentos única e exclusivamente por um nutriente como é o caso do glúten que não é vilão. Apenas celíacos devem evitar e eles equivalem a 6% da população brasileira, ou seja, os outros 94% podem comer”, explica a profissional.

Nova rotulagem

A ABIA apresentou a proposta de um novo modelo de rotulagem alimentar.  No protótipo defendido pelo setor, o consumidor terá acesso a uma rotulagem nutricional frontal com bases indicativas por porção, onde os ícones de sódio, açúcares totais e gordura saturadas passam a ser coloridos em verde, amarelo e vermelho. As cores alertam para a quantidade de consumo dos nutriente em relação a recomendação diária.

*O repórter viajou a convite da ABIA.