Quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2020

Thales Silva fala do desdobramento audiovisual do disco 'Banzo'


04/04/2017 às 17:06

Rosiel Mendonça

O músico mineiro Thales Silva, o Minimalista, lançou há menos de um mês o segundo disco da sua carreira solo – o nome da criança é “Banzo” e saiu pelo selo alternativo Quente. Na edição impressa do Bem Viver, nós publicamos uma entrevista em que o artista comenta sobre como esse novo trabalho começou, principais influências, dentre outras coisas. Mas alguns trechos da entrevista acabaram ficando de fora, como a explicação de Thales para o nome de batismo do álbum e a ideia de desdobrá-lo também no audiovisual.

Como se sabe, “banzo” é como chamavam o sentimento de melancolia que abatia a população negra escravizada no Brasil, ao mesmo tempo afastada da sua terra natal e privada da liberdade. Daí, parti para a pergunta:

O que a escolha dessa palavra tem a dizer sobre o disco?

Thales Silva: Tem tudo a dizer. Eu conheci a palavra com o uso popular pra saudade pelos baianos, mas já sabia da relação nefasta com o que os europeus causaram aos negros no Brasil, da depressão pelo roubo da sua identidade. De toda forma, eu tratei disso como um reflexo atual, como isso influencia na nossa sensação de falta, nessa melancolia, nesse saudosismo particular do brasileiro, sobretudo daquele que se envolve com a cultura popular, os “cantautores”, atores e autores e os intelectuais. Temos sempre algo mal resolvido no passado ou um sonho de algo que nem sabemos o que é no futuro. O “Banzo” norteou o processo justamente pela sensação de falta, de necessidade de procura. O desterro te faz ter saudade de algo que você já não se lembra mais. A análise e auto-investigação se dá da mesma forma. Você sente saudade, sente falta e sente vontade, mas nem consegue desenhar o que é. É um processo e uma experiência de procura de si mesmo. É nessa sensação particular do banzo que eu me apeguei. Nesses efeitos posteriores. Nessas aflições como reflexo num cidadão comum do Brasil moderno. Os séculos se passaram, mas nossas aflições estão aqui. Também nos aspectos mais pessoais e profundos.

O lançamento do disco também vem acompanhado de um ensaio de fotos no Instagram e vídeos para cada faixa no Youtube. Pode falar um pouco sobre essa proposta?

Thales Silva: O “Banzo” tem sido um processo vivo. Ainda não acabou e talvez nem acabe ao fim das turnês de circulação. Primeiro era uma palavra, depois foi um conceito norteador e curador e, nessa fase final, quando o disco já estava pronto, entramos num processo de redescoberta. As horas de mixagem, as reuniões de assessoria e as resoluções comerciais me distanciaram absolutamente do clima que me levou à construção daquilo tudo. Conversei bastante com o Rafael Quick (diretor artístico) e o Athos Souza (fotógrafo) sobre a importância de reencontrarmos o sentimento inicial para que as fotos e vídeos funcionassem. Nisso, decidimos construir uma narrativa ousada no meu Instagram para que pudéssemos trazer as pessoas pra ideia e pra sensação que o “Banzo” foi construído. Fizemos literalmente uma viagem de procura desse sentimento e fomos registrando esses passos. Nos retiramos para vilarejos no interior, atrás do silêncio, dos detalhes, da simplicidade. Essa nudez do redor foi nos ajudando e reconectando com o conceito. Encontramos o “Banzo” nos detalhes, no retiro, na entrega e no tempo. E é nesses lugares distantes que encontramos o mais íntimo da gente. É aí que podemos ir no interior de nós mesmos. O ensaio é sobre isso, sobre o “Banzo” e sobre nossa procura desse sentimento e do por que dele. Essa experiência nos modificou bastante e acredito que ela ainda vai render mais coisa.

Aqui embaixo você confere o vídeo da primeira faixa do disco, “O peso”, com a participação de Gui Amabis.


Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.