Sexta-feira, 07 de Maio de 2021

Um adeus ao Chick!

Um dos gigantes do jazz, o pianista Chick Corea faleceu no último dia 9 de fevereiro. Nosso articulista de música Abner Viana fez uma lista com álbuns que remontam quase 60 anos de carreira do artista


26/02/2021 às 22:04

Por Abner Viana*

No final dos anos 60’, o trompetista Miles Davis (1926-1991), já havia revolucionado o mundo do jazz “de ponta a cabeça”. Muito influenciado pelo rock e pelo pop daquele período, acabou dando origem a outra revolução que ecoa ainda até hoje. O fusion, melhor dizendo, o jazz-fusion. Chick Corea foi um dos responsáveis pela estética musical dessa época (tocando é claro, com o próprio Miles e com muitos outros daquela fase). E, ao lado de nomes como: Herbie Hancock (1940) e Keith Jarrett (1945) formava o trio de pianistas mais influentes do jazz moderno. 
Chick Corea ganhou 23 Grammys, o primeiro ainda nos anos 1970 e o último no ano passado. Faleceu em decorrência de um câncer, no último dia 9 de fevereiro de 2021, aos 79 anos (que para nós, fãs da música instrumental, uma surpresa nada agradável). Ele foi uma das figuras emblemáticas mais influentes do jazz-fusion, além de ter explorado muitos ritmos latinos, formações de trios e quartetos mais tradicionais do jazz, e, ter gravado duetos com músicos tão diferentes e diversificados por seus respectivos estilos, para citar alguns: o vocalista Bobby McFerrin (1950), Makoto Ozone (1961), o banjoísta Béla Fleck (1958), e, entre outros. Lançou também uma série de registros de seus concertos para piano solo (ao vivo), em que mostrou sua capacidade de criação e improvisação com muita espontaneidade (nas estruturas e desenvolvimento de seus temas). Além de projetos bem intrigantes como o Mozart Project (trabalho que tive o imenso prazer conferir em Montreux/Suíça no ano de 2006, e, ainda “de quebra”, pude conhecê-lo pessoalmente, no qual conversamos bastante sobre a trajetória da música instrumental brasileira).  Imergir na discografia de Chick Corea sem saber por onde começar é uma tarefa (ainda) bem complicada. São mais de 80 discos em estúdio, quase duas dúzias de discos ao vivo (parte dessa produção ele gravou com a famosa Chick Corea Elektric Band), e, outros tantos em que aparece como convidado. 
Para compreender um pouquinho da importância de Chick Corea para com a história da música ocidental, é necessário conhecer algumas das sonoridades no qual o pianista explorou ao longo de uma trajetória de quase 60 anos de carreira.Separei aqui com muita acuidade, uma pequena, porém significativa lista de alguns álbuns do mesmo (todos disponíveis nas plataformas de streaming atual).

1) Bitches Brew, de Miles Davis (1970) – este álbum de assombrou os fãs e os críticos de jazz. As composições eram longas (com mais ou menos 20 minutos de duração), ocupando lados inteiros do então vinil duplo, e a sonoridade desafiava qualquer definição. Aquela sonoridade elétrica e atrevida eram os sintetizadores de Chick.
2) Return to Forever (1972) – essa foi a primeira gravação com sua banda, a Return To Forever, que Chick Corea preparou na década de 70’. Com grandes participações, dentre as quais, podemos citar a vocalista brasileira Flora Purim. Chick usa o piano elétrico para criar climas space down, marcados por ritmos latinos e brasileiros.
3) My Spanish Heart (1976) – gravou com alguns de seus parceiros do grupo Return To Forever, como o baixista Stanley Clarke (1951) e o violinista Jean-Luc Ponty (1942), Corea misturou elementos elétricos, como os sintetizadores, com uma orquestra completa em pequenas suítes que exploravam a música latina de forma mais profunda. Ouvindo por várias vezes, impressionam pela velocidade com que os músicos tocavam, e, foi neste trabalho, que Chick Corea nos apresentou a famosa Armando’s Rhumba, que se tornou um famoso standard do jazz.
4) Inside Out (1990) e 5) Paint The World (1993) – Chick criou um timasso que marcou época (de chegar a ser febre viral, melhor dizendo), onde chegava na ápice do jazz-fusion. Tais eram os músicos: o saxofonista Eric Marienthal (1957), o guitarrista Frank Gambale (1958), o contrabaixista John Patitucci (1959), e o baterista Dave Weckl (1960). Para mim, estes álbuns foram extremamente determinantes no quesito: precisão de arranjos nos interlúdios de cada tema. Sem contar que com essa formação (ao vivo), vez ou outra, apresentavam releituras novas da famosa Spain, autoria do próprio Chick.
6) Three Quartets (1981) – Gravou com nada mais e nada menos, a lenda do saxofone tenor Michael Brecker (1949-2007), o super contrabaixista (acústico) Eddie Gomez (1944) e o sucinto baterista Steve Gadd (1945). Todas as composições deste álbum foram de autoria própria de Chick Corea, que acabou criando algo que o influenciou na juventude, composições fincadas nas formas dos períodos Barroco, Clássico, Romântico e o período de compositores modernos (os ditos impressionistas). Algo era diferente na sonoridade desse quarteto apesar de não fugirem da improvisação do jazz. 
Descubra, pois, você precisa apreciá-lo!

 

 

 

 

*Abner Viana - Natural de Manaus (AM),  é músico (Saxofonista/ Clarinetista) e pesquisador. Possui Mestrado em Música pela UEA. Já trabalhou com diversos artistas nacionais e internacionais tanto no Brasil, Europa, bem como na América do Sul.


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