Quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2020

Um risoto de boas histórias


16/05/2016 às 00:00

Laynna Feitoza *

Seria o cozinheiro Edu Guedes um “bon-vivant” da gastronomia? Para muitas mulheres e rapazes que foram à aula-show do gastrônomo, na última sexta (13), o termo se encaixa bastante nele. O evento aconteceu em comemoração aos 25 anos do Amazonas Shopping, que o levou lá para compartilhar a receita de um risoto que “todo mundo pode fazer”. Mas, além do risoto como prato principal, teve muita conversa e camaradagem com os presentes, onde respondeu perguntas, agradeceu (e brincou) com os elogios que ganhou e tirou muitas fotos.

Edu está há 20 anos na televisão falando de gastronomia. Já publicou 28 livros e vendeu mais de 10 mil exemplares. Foram estas as informações que ele deu enquanto se preparava para cozinhar. “Parece que já estive aqui, no mesmo lugar, mas falando com outras pessoas”, afirmou, evidenciando a intimidade que tem com a comida da Amazônia, e claro, com o povo da Amazônia. “Há 16 anos comecei a vender produtos licenciados e vinha três vezes por ano a Manaus. Conheci muitas comunidades ribeirinhas, e aprendi a estar próximo das pessoas”, declarou.

Ele garantiu que a diversidade dos pratos da nossa região é o que mais o encanta. “O peixe que mais gosto é o tambaqui porque é versátil. Também gosto das farofas feitas com castanhas da região. Não entendo como em um lugar tão quente se toma caldo quente, mas entendo que é característica daqui”, disse ele, aos risos. Depois do papo, ele logo emendou para o que foi fazer, de fato, no evento: mostrar como se faz um risoto à moda italiana. “Espero fazer algo para todos fazerem para a família, reproduzirem a receita e ganharem dinheiro com ela”, diz.

Desconhecedora que sou de algumas coisas do ramo da gastronomia, aprendi com Edu que risoto quer dizer “sopa enxuta”, em dialeto piamontês. Para compor o prato, ele usou salsão, cenoura, cebola, caldo de legumes (ou o que for de escolha da pessoa). A batata, segundo ele, é opcional na hora de fazer o risoto, mas ainda assim primordial. “A batata tem amido, o que ajuda a dar a ‘liga’ do risoto”, explicou ele.

Mesmo com o rosto na panela, Edu parecia absorver a importância do carinho das pessoas presentes. Ele avistou uma senhora o olhando e exclamou: “Eu já vi a senhora me admirando por duas vezes, o que eu acho incrível. Nas vezes que minha mulher olhou assim para mim, foi para dizer que me amava”, garantiu. Após todos caírem na gargalhada, ele retornou ao prato que fazia, dizendo que para o risoto, não é necessário lavar o arroz. “Para que ele solte o amido e fique cremoso”, orienta.

No meio de cada breve explicação que dava sobre o prato, Guedes chamava uma fã para conversar ou para abraçar. Enquanto ele cozinhava, o público estava livre para perguntar o que quisesse. Questionado sobre as dificuldades de cozinhar na TV, ele respondeu: “Eu já fiz 5 mil pratos ao vivo. Temos que ter responsabilidade, porque as pessoas estão do outro lado da TV. Tenho que casar o tempo que eu tenho com a receita. Se eu explicar errado, a pessoa pode errar o preparo e perder o dinheiro dela”, argumentou.

Cozinha e TV

Alguém perguntou sobre os critérios que as receitas dele para TV deveriam ter, e ele não titubeou. “Minha receita tem que ser gostosa, senão ninguém vai fazer. Ninguém tem mais tempo para deixar 12 horas algo de molho. Tem que ser viável financeiramente e ser fácil de encontrar os ingredientes”, revelou. Outra pessoa, em outra pergunta, trouxe a conversa para a nossa regionalidade. “O que é simples e que eu mais gosto aqui é a costelinha de tambaqui. Você pode cozinhar ela de várias formas diferentes”, disse ele.

Guedes contou ainda que, se tivesse uma lanchonete e tivesse que vender algo daqui da Amazônia, ele faria um croquete de tambaqui, com jambu, ou uma coxinha de pato no tucupi. Ele disse ainda que, sempre que viaja e volta com as malas cheias, é porque a viagem foi proveitosa. Na pausa das perguntas, ele voltou para dar mais dicas sobre o risoto. “Tem um truque na Itália que você vai batendo a colher desse jeito e que o grão do arroz bate duro. Quando o grão parou de bater duro na panela, é sinal de que o risoto está pronto”, colocou.

O ponto alto da aula-show foi quando um grupo de moças pediu para ele olhar para o lado direito da plateia. Ele então, não se contentou e desceu para falar com elas, e foi ovacionado. “Mas você estudou pra caramba e só vai ficar atrás de um fogão?”, respondeu Edu a uma pergunta, quando voltou ao palco, sobre o que ele mais ouvia acerca da carreira que ele tinha escolhido. “Quando eu comecei a cozinhar, a cozinha estava na área de serviço. Hoje, sou contratado para propagandas de apartamento para anunciar que a cozinha foi projetada na sala”, apontou ele, sobre a desmistificação da profissão hoje.

Falando ainda sobre a discriminação que muitos homens enfrentavam na cozinha, ele relembrou de uma situação, há 18 anos, em que numa ficha de hotel ele preencheu “cozinheiro” na lacuna dedicada à profissão. “A moça então me perguntou como eu conseguia ficar hospedado naquele hotel. Disse que muito me espantava ela ter estudado hotelaria e não saber que podemos ter sucesso em tudo o que fazemos”, declarou.

E declarou, indiretamente, o quanto de afeto é necessário haver na receita que envolve o trabalho com a cozinha. “Às vezes, você fabrica uma trufa que tem um valor sentimental. E é isso que você tem que valorizar”, disse ele. Ao terminar o prato que fazia, Guedes pareceu ter certeza que terminava também ali um risoto de boas histórias. E que, com sua consolidada carreira na cozinha, nada daquele preconceito velado que enfrentou na vida lhe importava. “Mandei uma foto daqui para minha mulher e ela disse ‘Tô orgulhosa de você’. E isso me basta’”.

* Laynna Feitoza é fascinada por folclore, abstracionismo, experimentalismo, e iluminismo. Aves, astronomia, astrologia e tudo o que dê asas a algum lugar são o centro da sua existência. 

 

 


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