Domingo, 13 de Junho de 2021

Entre a medicina e a política 

Em certo tempo, e até recentemente, não havia chapa de candidatos a cargos parlamentares da qual não constassem vários médicos.


Não foram poucos os médicos que, atuando no Amazonas, seja na capital como no interior, se envolveram em política partidária e conseguiram exercer mandatos no legislativo e no executivo. Em certo tempo, e até recentemente, não havia chapa de candidatos a cargos parlamentares da qual não constassem vários médicos. Antigamente, entretanto, não se tratava de coisa de ocasião, mas de resultado da prestação de serviço humanitário e social tradicional, com os quais o profissional se credenciava, verdadeiramente, como representante popular não só pelo voto, mas pela sua própria trajetória de vida.

Um destes foi o dr. Antônio Ayres de Almeida Brito, soteropolitano, nascido em 1872 e falecido em 1932. Formado na respeitável faculdade da Bahia (1898), especializado em Paris em leprologia, sifiliografia e dermatologia, chegou a Manaus em 1900, quando iniciou importante carreira na medicina, no magistério e, depois, enveredou pela política.

No seu campo profissional foi professor da faculdade de Medicina e Farmácia da Universidade Livre de Manáos, chefiou o serviço estadual de lepra, foi provedor da Santa Casa de Misericórdia, posto cobiçado e de alta responsabilidade naqueles anos, firmando-se dentre os grandes de sua época. Intelectual, foi membro fundador do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas e seu presidente, ainda que em pouco tempo de gestão, vindo a falecer no exercício do cargo de segundo vice-presidente da instituição.

O encanto pela vida parlamentar fê-lo deputado estadual e presidente do Poder Legislativo, mas já havia sido prefeito municipal de Manaus, eleito pelo voto popular, credenciais que justificaram a posição de relevo que assumiu quando do movimento tenentista de 1924, ao que tudo indica, servindo até de principal conselheiro do interventor militar, general João de Deus Menna Barreto, ainda que não tenha se envolvido diretamente no episódio. O que se sabe é que este movimento revolucionário tem sido muito bem estudado sob a ótica de Ribeiro Júnior e seu grupo, jamais observado conforme o cenário antevisto por Rego Monteiro e sua família.

Na ocasião, por sua envergadura moral e respeitabilidade social, Almeida Freitas teria sido insistentemente convidado a se tornar interventor do Amazonas com o objetivo de repor a ordem administrativa, social e militar, mas rejeitou, abrindo espaço para Alfredo Prates de Sá assumir o governo, advindo de Minas Gerais, e conseguir acordo e pacificação das oligarquias amazonenses de 1925 até 1930.

Conta-nos o grande biógrafo Agnello Bittencourt que os notórios conhecimentos médicos e científicos de Almeida Freitas o fizeram, se forma inesperada, vice-presidente de importante congresso médico internacional levado a efeito em Paris, em 1912, fato testemunhado pelo desembargador e maestro Paulino de Mello, meu tio-avô, pernambucano clássico, fundador e presidente do Clube Pernambucano do Amazonas, a respeito de quem o Amazonas está a dever um cuidadoso estudo biográfico, seja do ponto de vista do exercício da magistratura por seus votos magistrais, seja como maestro e educador musical.

Almeida Freitas foi candidato a prefeito nas eleições para o mandato de 1917-1919, pelo Partido Republicano Conservador, apoiando Sérgio Pessoa, Aprígio de Menezes, Henrique Rubim, Aristides Andrade, Raimundo Ferreira do Valle Sobrinho e o major João César de Mendonça, para vereador, todos sustentados por Silvério Nery, Dorval Porto , Antônio Nogueira, Aurélio Amorim, Ramalho Júnior e Hildebrando Antony que eram considerados os chefes políticos do partido e líderes de grande influência no sistema eleitoral da época. Eleito, cumpriu honradamente o mandato, conferindo atenção especial às questões de saúde pública que estavam a exigir atuação decisiva dos governantes e da população, assim como à expansão urbana com abertura de novas vias, mas marcou época com o relatório financeiro mais minucioso até então elaborado,  sem desprezar as missões religiosas católicas de seu São José.

Em seguida, liderou a decisão de renúncia de todos os deputados estaduais, de cuja Assembleia era o presidente, de modo a facilitar a decretação da intervenção federal de 1925. Foi dos que honrou a profissão e a política, pois sobre ele jamais se levantou suspeita de qualquer natureza.


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