Sábado, 15 de Maio de 2021

O padre da pá virada

O rigor dos discursos de José Félix da Cruz Dácia assustava e sua carreira eclesiástica, desenvolvida em Manaus, bem que merecia ter ganho outros ares


Não foi o primeiro padre a quebrar todas regras recomendadas pela Santa Igreja Católica Apostólica Romana, por certo, mas ele ficou conhecido nas rodas de magistério, da igreja, da política e da sociedade de sua época, precisamente, por algumas estripulias e por seu desprendimento.

Professor de escola pública e particular da capital amazonense, notadamente do renomado Ginásio Pedro II, bem preparado em linguística, filosofia e versado em vários idiomas, foi muito bem reconhecido ao tempo do bispado de dom Antônio Macedo Costa que o mandou estudar em Paris e, especialmente, frequentar a Sorbonne, quando ainda menino e quase rapaz. 

Além das aulas e das missas que costumava ministrar, esse padre paraense, do tipo mulato bem escuro, resolveu se envolver em política partidária e eleitoral conseguindo ser eleito para o mandato de deputado provincial. Foi nesse mister que se tornou, também, notável, pelo bom uso da tribuna, principalmente em oposição ao governo local, enfrentando de peito aberto todo e qualquer governante que não se empenhasse em questões de interesse popular. Tempos depois, vencido pela idade, tornou-se irreconhecível para os de seu tempo, perdendo a lucidez dos pronunciamentos e das pregações.

O que se sabe, segundo seu biógrafo, o mestre Agnello Bittencourt, é que não se voltara, como muitos outros religiosos, para aventuras românticas nem se envolvera em negócios escusos no governo e na política. O rigor de seus discursos assustava, dizia um jornal da época, e a sua carreira eclesiástica desenvolvida em Manaus e adjacências, bem que merecia ter ganho outros ares, em cidades de maior porte.

Desprovido de vaidades, preparado por voto de pobreza, beneditino até, abria mão de presentes, agrados, lembranças e quaisquer relíquias que os fiéis ofertassem como agrado, para dar aos menos favorecidos, mantendo-se com sua batina surrada pelos lados da igreja de Nossa Senhora dos Remédios na qual pontificou por vários anos, merecendo a atenção de muitas centenas de devotos.

Episódio curioso de sua passagem entre nós, decorreu de sua viagem ao Rio Branco, atual estado de Roraima, na qual perdeu-se pelos campos do lugar, sem que dele se tivesse notícia durante algum tempo, razão pela qual foi dado como desaparecido e morto. Por isso foi realizada missa de sétimo dia pelo descanso eterno de sua alma, com a piedade dos cristãos manauenses.

Pouco depois da missa eis que chega a Manaus, lépido e fagueiro, o nosso padre da pá virada, e, tomando conhecimento da celebração religiosa, caiu na gargalhada desconcertando os amigos que mandaram rezar a missa. Foi um deus nos acuda para conter a indisposição de alguns com a irreverência do padre.

Decaído da política e aposentado do magistério público, rapidamente perdeu as referências na Igreja e dele retiraram o altar dos Remédios para pregação. Abalado, em profundo abatimento, parece que sem permissão de qualquer autoridade eclesiástica, passou a celebrar, aos domingos, na pequena Capela do Cemitério de São José para a qual ainda acorriam algumas poucas pessoas interessadas em ouvi-lo.

Sem conseguir a mesma plateia que costumava ter nos tempos áureos de seus inflamados discursos sacros, pronta para o encanto de suas pregações, um dia, inopinadamente, zangou-se e quase expulsou as poucas senhoras que o ouviam. Seu nome ficou gravado como brilhante orador sacro e político, e professor dos melhores: José Félix da Cruz Dácia.


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