Sexta-feira, 23 de Agosto de 2019

Que tal ir ao teatro hoje?

Por Taciano Soares - Ator, diretor e produtor cultural; Professor de Teatro e Produção Cultural (UEA); Doutorando em Artes Cênicas (UFBA)


18/07/2019 às 16:39

“Que tal ir ao teatro hoje?” Uma camiseta com essas inscrições foi usada por artistas há alguns anos, em Manaus, como uma provocação à reflexão: O que as pessoas fazem quando não estão trabalhando nem estudando? O que leva ao alguém ao teatro nos dias de hoje? Na história, o público passou por diversas transformações, bem como a própria condução das realidades sociais. Os valores e as condições de acesso aos bens culturais foram transformando-se de acordo com o desenvolvimento e formação das sociedades e inúmeros fatores foram atrelados como fundamentais para o desenvolvimento, estímulo e maior participação da sociedade nos bens culturais produzidos.

Em 2018, a empresa J Leiva Cultura e Esporte publicou o resultado da pesquisa intitulada “Cultura nas capitais: como 33 milhões de brasileiros consomem diversão e arte” realizada em doze capitais brasileiras, lançada em formato digital e físico. Entre diversos dados, a cidade de Manaus é apontada como uma das que menos possuem espectadores nas plateias dos teatros locais. Além de considerarmos necessariamente as variáveis que permeiam a pesquisa, como qual a porcentagem de representatividade da amostra escolhida, quais teatros são considerados para a pesquisa, a relação proporcional com a cidade, entre outros, é essencialmente sobre essa questão que me parece pairar o trabalho do artista de teatro em Manaus: para quem as obras são feitas?

Uma pergunta como essa não seria possível de ser respondida facilmente. Mas certamente ela nos orienta para uma reflexão bastante pertinente, sobretudo no momento histórico em que estamos. Para que uma pessoa possa sair de sua casa e ir ao teatro, por exemplo, assistir um espetáculo, são necessários diversos movimentos que vão desde a criação subjetiva da necessidade em alguém de consumir arte, até às condições físicas de acesso ao local, como segurança, transporte, valor do ingresso, entre outros.

Além disso, é preciso considerar um elemento fundamental para compreender esse processo: a criação do hábito. Nós todos somos resultados de uma série de fatores em nosso ambiente social que, de alguma forma, nos moldam em nossas escolhas de consumo. A escola em que estudamos, a família que temos, nossos amigos de infância, o bairro em que moramos, tudo constrói uma primeira camada de influência sobre quem nos tornamos quando precisamos apontar para as diversões que escolheremos ter.

Mas como isso pode se relacionar com a pergunta norteadora dessa nossa conversa? Ora, para que alguém queira ir ao teatro hoje é preciso pensar o quanto essa pessoa aprendeu sobre que ir ao teatro é uma opção capaz de despertar bons sentimentos como satisfação, reconhecimento, prazer, naquele que vai e assim construir o desejo, a necessidade de viver aquela experiência. Esse tipo de construção é um esforço coletivo social, operado por todos os entes já mencionados anteriormente.

Portanto, a resposta está em novas questões: quanto a nossa sociedade tem investido em favor da arte e da relação da mesma com o cidadão? Será que temos dado condições reais de desenvolver toda a potência que há na formação de um indivíduo que desde a sua infância é apresentado às manifestações artísticas de forma natural e integrada com o seu desenvolvimento? Podemos compreender a responsabilidade compartilhada entre instituições privadas (família, escola, comunidade) e públicas para alcançar o verdadeiro incentivo ao consumo cultural?


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