Segunda-feira, 06 de Julho de 2020

A janela de Hermann

Se as dificuldades estruturais e de consciência nos impedem de abrir portas e caminhar nos caminhos percorridos pelos mais vulneráveis, a janela é bussola reveladora.


“Já olhou pela janela?”, costumava perguntar o virologista brasileiro Hermann Gonçalves Schatzmayr aos pesquisadores recém-chegados e aos mais experientes com os quais lidava na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

O convite – “olhar pela janela” –  é um movimento singular nas andanças da ciência e no processo de formação profissional em todas as áreas do conhecimento. A janela como angulação metaforiza o olhar que enxerga, sente e reage. Faz!

Um pouco da história de vida de Hermann Schatzmayr apareceu, no dia 20 de junho, numa matéria jornalística assinada por Luiz Claudio Ferreira, com edição de Beatriz Arcoverde, da EBC, como parte dos atos de memória e de homenagem a esse brasileiro falecido nessa mesma data há 10 anos.

Os recortes da trajetória do pesquisador são apresentados em momento propício. Hermann esticou os galhos da pesquisa sobre vírus a partir dos anos 50 do século XX, deu aos estudos de virologia dimensões sociopolítica-econômica que hoje se revelam fundamentais. Trouxe ao primeiro plano a importância de perceber no conjunto da sociedade aqueles mais vulneráveis, os desprotegidos, os desvalidos, os indefesos.

A conduta do enxergar para além do laboratório das especificidades é dimensão desafiadora dos ofícios e, no Brasil atual, torna-se mais desafiante. Pela vontade determinada de Schatzmayr e do entusiasmo com o qual envolvia pesquisadores, orientandos deles, foram protagonizados estudos de referência internacional como o isolamento do vírus tipo 1 da dengue e, mais tarde, dos tipos 2 e 3.  Se vivo, hoje, “ele estaria falando para tentar identificar as transformações do vírus, os diferentes comportamentos”, disse, na entrevista, a bióloga Monika Barth, companheira de toda vida do virologista.

Se as dificuldades estruturais e de consciência nos impedem de abrir portas e caminhar nos caminhos percorridos pelos mais vulneráveis, a janela é bussola reveladora. Por que as populações mais pobres do Brasil foram secundarizadas nos aparatos mais sofisticados de tratamento e prevenção da pandemia do novo coronavirus? Por que os povos indígenas foram tornados invisíveis na cobertura e nas coletivas das autoridades de saúde na primeira e segunda fase das ações de enfrentamento da Covid-19?

É possível rascunhar o esqueleto da prioridade dada e, depois, enxertar outros componentes como cor, raça e etnia e condição econômica. Substantivos e advérbios estão acionados para estabelecer funcionamento das regras governamentais de programas de enfrentamento ao novo vírus. São mais de 119 indígenas mortos (dados da SESAI até o dia 22 de junho) e um cotidiano traduzido em abandono já expressivo antes da pandemia e agravado a partir dela.

Famílias indígenas passam fome e vivem um tipo de interdição que mata em escala todos os dias. Abramos a janela. O gesto pode protagonizar outras descobertas e revelar paisagens não percebidas, os contornos do racismo em ação mais eficiente que aquela publicizada onde tudo está funcionando bem e as pessoas mais vulneráveis estão agradecidas. Abramos mais janelas e limpemos nosso olhar para enxergar além de nós mesmos.


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