Sexta-feira, 30 de Outubro de 2020

As batalhas das candidatas

O mais bonito discurso de isonomia no tratamento de homens e mulheres não resiste à realidade das práticas partidárias


Os números das eleições municipais deste ano (prefeituras e câmaras) são robustos, mesmo considerando possíveis baixas decorrentes de problemas na documentação, na conduta de candidatos, adoecimentos e mortes: 526 mil pedidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ou seja, 47 mil a mais quando comparado com os de 2016.

Mulheres e negros aparecem em situação numérica com maiores porcentuais de participação nas disputas eleitorais, embora muito distante do desejado para que prefeituras e câmaras municipais expressem a cara do Brasil – feita de composições negras, pardas, indígenas, brancos e amarelos (IBGE-Pnad/2019). Os indígenas representam 0,39% do total das candidaturas.

As mulheres candidatas enfrentam desafios erguidos e tecidos em modelos resistentes. O aumento de candidaturas do sexo feminino nas eleições de novembro expõe o caminho difícil percorrido por elas. Tem-se maior volume de candidatas na história eleitoral do Brasil (33.3%), ainda assim, próximo da cota de 30% determinada por lei.

Os 3.3% de crescimento nas candidaturas femininas são, de um lado, a obrigação de os partidos respeitarem a cota de participação da mulher, e, por outro, o resultado da luta sem trégua que diferentes coletivos de mulheres travam em um longo processo de enfrentamento à cultura patriarcal nos cargos de poder do Executivo e do Legislativo; das alianças estratégicas de setores institucionais dentre os quais o Tribunal Superior Eleitoral; e da função de observatórios criados para monitorar a presença da mulher nos espaços de poder, estes produzem e fazem circular análises responsavelmente elaboradas que vêm se constituindo em subsídios valiosos ao movimento de mais mulheres nos espaços de poder.

Os partidos políticos são uma das primeiras barreiras. Funcionam excessivamente pela lógica masculina de exercício do poder que anda de mãos amarradas ao machismo. O mais bonito discurso de isonomia no tratamento de homens e mulheres (para ficarmos em um parâmetro) não resiste à realidade das práticas partidárias que atendem a interesses de uma engrenagem onde o lugar da mulher permanece em negação.

Feitas candidatas, mulheres descobrem o peso da ação da máquina partidária e o estreito espaço por onde terão que se movimentar incluindo as formas de acesso ao recurso financeiro para a campanha. Os donos dos partidos agem mais rápido e reinventam filtros dentro da lei o que lhes assegura manter o controle da verba.

Garantir condições da participação efetiva das mulheres candidatas nas eleições exige ser compreendido como necessidade de todas e todos nós na correção de uma das cruciais anomalias do sistema. Não é natural que a população de eleitores do Brasil tenha 52.5% de mulheres e a política no Legislativo e no Executivo se realize pela ação majoritariamente de homens.

Há um estado permanente de adoecimento da sociedade que se exprime em vários comportamentos, entre esses o do culto à violência contra as mulheres e ao feminicídio. Os 3.3% do crescimento das candidaturas de mulheres devem ser celebrados na perspectiva da caminhada feita, dos embates travados e das conquistas realizadas. O número, neste caso, enuncia a pluralidade das lutas de mulheres, em diferentes arenas, no enfrentamento do exercício de poder patriarcalizado.


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