Terça-feira, 13 de Abril de 2021

Caiu? Substitui, é só uma peça

A pandemia fez explodir o sofrimento de milhares de brasileiros para além da contaminação pelo novo coronavírus.


Há dois meses e meio, no WhatsApp, aplicativo multiplataforma, circulam indicadores do outro adoecimento produzido pela pandemia da Covid-19. “Estou preocupada com fulana”, o “ciclano não anda nada bem”, “não sei o que está acontecendo comigo. Estou muito ansiosa”, “já não consigo mais dormir”, “poxa, fulana está muito estressada”.

São essas algumas das mensagens repetidamente postadas nos grupos de amigos e de familiares no WhatsApp. Apelos, pedido de ajuda, apresentados como relatos comportamentais, tornaram-se mais frequentes nesse meio a partir de março de 2020 e, mais agudamente nos três primeiros meses deste ano.

Os sinais do novo coronavirus faz explodir o sofrimento de milhares de brasileiros para além da contaminação pelo Covid-19. São os sequelados que sobreviveram à doença e os que não alcançados pessoalmente pelo vírus, sucumbem aos efeitos dele no cotidiano de suas vidas. A maioria dessas pessoas numa ou noutra situação, está fora do alcance da atenção de profissionais da psicologia, psiquiatria, nutrição, endocrinologia.

A falta de um programa nacionalmente costurado para socorrer esses outros doentes deve aprofundar o dano psicossocial a que a sociedade está submetida. Ignorar ou minimizar os efeitos da pandemia nas famílias, nas comunidades, na sociedade, como vem sendo ignorado no Brasil, é dizer a um processo de instabilidade social com potencial para manter o país por longo período submerso a transtornos quase coletivos.

Nas conversas pelo WhatsApp, os transtornados estão, na imensa maioria, abandonados. A família tem dificuldade em ajudar, os amigos se colocam à disposição no “conte comigo” e os profissionais mais habilitados para acolher e tratar parecem inalcançáveis. Nossos amigos e muitos de nós nos encontramos transtornados, depressivos, estressados, acometidos por fortes dores de ouvido, pelos zumbidos, pela fadiga.

Muitas mulheres com atuação destacada nos movimentos feministas estão, nesse momento, em paralisia porque não mais suportam o peso do que foi colocado sobre elas. Até pouco tempo, como ocorreu no ano passado, elas estavam incansavelmente nos mutirões solidários para fazer chegar comida, produtos de limpeza pessoal e domésticos, medicamentos a famílias que viram a fome se instalar em seus barracos.

Várias dessas mulheres adoeceram e morreram. Outras viram a Covid-19 levar familiares e amigos. Estão emocionalmente afetadas. Já não encontram ânimo para seguirem organizando ações que gerem alimentos aos famintos. Nenhuma política pública passou a ser operacionalizada para, efetivamente, cuidar dessas pessoas. A sensação é a da não importância à vida delas. Como é que governos menosprezam os sinais fartamente apresentados em igual ritmo que cresce o número de doentes e de mortos pela Covid-19?

Nossas vidas sequeladas pela pandemia não têm valor a esses governos. Não são prioridade e quem não suportar o peso dos transtornos que assuma os riscos. É tão cruel o descaso governamental na oferta de tratamento quanto o é na minimização do poder letal do novo vírus. Este responde pela morte de aproximadamente 400 mil brasileiros, o outro se instala vorazmente no ambiente familiar e do trabalho. Como ‘efeito dominó’ nos derruba um a um. Nos percebemos peça descartável. Caiu, substitui. A vida requer outra atitude. Que os transtornados pela pandemia possam ser percebidos, acolhidos e tratados respeitosamente. 


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