Quarta-feira, 12 de Agosto de 2020

Lágrimas revolucionárias

A estatística da morte, sob a justificativa de que “nada pode ser feito porque todos irão morrer”, impacta, doí fundo.


Dois encontros grandes. Não exatamente pela quantidade de pessoas automobilizadas, e foram muitas, e sim pela singularidade neles contida. Do planejamento à concretização os resultados traçam pedagogias caminhantes, ensaios da esperança-criativa para a Amazônia e os povos amazônicos. 

No 25 de julho, por mais de 12 horas, mulheres pretas, indígenas, quilombolas, conectadas do Norte ao Sul do Brasil com Venezuela e o Haiti, realizaram a 9ª edição, virtual, do Encontro de Mulheres Afro-ameríndias e Caribenhas. A reunião acontece desde 2012 por iniciativa do Fórum de Mulheres Afro-Ameríndias e Caribenhas. 

No 28 de julho, durante oito horas, o Fórum de Educação Escolar e Saúde Indígena (FORREIA-AM), a Frente Amazônica de Mobilização em Defesa dos Direitos Indígenas (FAMDDI) e a Organização dos Professores Indígenas de Roraima (APIRR) botaram nas infovias a pauta da Educação e da Saúde Indígena.

O I Encontro Virtual de Educação e Saúde Indígena do Amazonas e Roraima tece uma pauta interestadual e, ao mesmo tempo, propõe ações concretas nas áreas de Saúde e de Educação Indígena e o faz exatamente em momento crucial: retirada da representação indígena do Conselho Nacional de Educação (CNE), avanço da Covid-19 nas comunidades indígenas e de morte indígena pela doença.

Se a saúde e a educação indígena tivessem sido tratadas como importantes o protocolo do governo brasileiro para tratar da pandemia em áreas indígenas teria sido outro e confeccionado há mais tempo. Ignorados como indígenas e convocados, na lógica governamental colonial, para se integrarem à sociedade nacional, os povos indígenas estabelecem estratégias de controle, reivindicam atenção médico-sanitária constitucionalmente asseguradas e tomam decisões coletivas.

Neste encontro, os participantes reestabelecem elos entre as organizações nos estados, desenham andanças reforçadas em todos os espaços de poder para reivindicar o respeito aos direitos de vida, de cultura diferenciada, do conhecimento e saberes tradicionais. É um grito e um movimento de vozes já reunidas nos anos de 1980 e 1990, agora retomadas pelos que vieram depois, os mais jovens, filhas e filhos da resiliência.

Escrevendo vivências: As vozes e os gestos desses dois encontros estão ecoando. São aquelas e aqueles que enfrentam a escravização atualizada nas práticas de governos fascistas e denunciam o racismo estrutural. Num e noutro encontro, a presença das juventudes são nossas lamparinas, abrem trilhas e traçam a luz nas estradas do hoje.

As jovens afro-Ameríndias e Caribenhas viram nos atos do 25 de julho a ponte de se conhecerem, reconhecerem e lutarem juntas. As linhas de sustentação da pedagogia da liberdade, da autonomia e da resistência à opressão capitalista-patriarcal estão prontas. Mais que um rascunho emocional, o que se viu e sentiu nesses dois encontros foi a disposição firme de seguirem reinventando as lutas, as formas de enfrentamento e as narrativas.

A estatística da morte, sob a justificativa de que “nada pode ser feito porque todos irão morrer”, impacta, doí fundo. Não silencia a dor da qual emerge a determinação de marchar virtual e fisicamente, encharcar de vida digna onde a indignidade quer fazer morada. Diante dos muros para pretas/pretos, quilombolas e indígenas, as potências dessa gente estão se juntando. As lágrimas, antes choradas sozinhas, se reúnem e, juntas, lavam a alma, produzem gestos revolucionários.    

 


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