Domingo, 20 de Setembro de 2020

Mensagem das borboletas

As borboletas pelos caminhos da Amazônia nos brindam e nos convocam: é preciso agir agora para barrar o fogo que queima e destrói o Brasil.


Ao longo da estrada rumo ao Iranduba, a Manacapuru ou tantos lugares além das margens da rodovia, havia há pouco tempo plantações fartas de maracujá do mato, melão caetano, jurubebeiras. Era festa certa todas as vezes que nossos olhos se deparavam com os frutos empoeirados.

Quando estávamos em meios de transportes de parentes ou amigos fazíamos, obrigatoriamente, uma parada animada para pegar os frutos e comê-los durante a viagem. Na ida ou na volta, eles estavam lá no tempo deles. Quando madurinhos, mais saborosos. Por vezes, perdíamos a colheita para outros bichos mais atentos à época das frutas boas para comer, ainda assim era motivo de festa constatar a casca oca ou com o fruto parcialmente consumido por eles. Algumas formigas faziam banquete com os pequenos fragmentos pendurados nos galhos, caídos no chão.

Hoje, o caminho parece o mesmo, se pensarmos na estrada que leva a algum lugar. Não é mais. Há tanta mudança na paisagem. Muitos empreendimentos, um fantasma chamado ‘Cidade Universitária’, condomínios, cemitério, muitos postos de gasolina quase todos de um único grupo e muitas placas de grupos grandes informando quem são os proprietários. Alguns pés de castanheiras da Amazônia resistem no meio da estrada, aliás, precisamos apoiá-las. Elas estão sob ameaça do fogo e do desprezo dos homens.

No trajeto, agora é tempo de muita fumaça e de labaredas queimando as vidas sobre a terra, os pedaços de terra, fazendo a língua do fogo lamber as águas dos banhos de beira da estrada tão cobiçados pelos moradores de Manaus e turistas em busca de refúgio e de lazer. É difícil estabelecer fronteira para o fogo e à fumaça, eles andam, se espalham, contaminam e podem devastar. A Amazônia sabe disso. O Pantanal sabe disso. Os que usam o fogo para destruir a vegetação sabem disso. E sabem também da impunidade porque o Governo está imóvel diante das tragédias amazônicas e pantaneiras. Saúda as pastagens futuras, os campos de soja de logo mais.

Os maracujás do mato, os melões e as jurubebas sumiram. Foram destruídos pelo progresso ensaiado naquela região. Não é mais possível encontrar os outros bichos que disputavam conosco a fruta madura. Em poucos quintais, espremidos pelo desenvolvimento, quando os humanos colocam pedaços de banana e de mamão, uns macacos dão o ar e a graça da presença. São cada vez mais raros.

Restam-nos as borboletas. Elas tentam escapar da fumaça para nos alegrar com seus bailados, pousos e diversidade de cores. Nos brindam e nos convocam: é preciso agir agora para barrar o fogo que queima e destrói o Brasil. Logo as borboletas mensageiras serão dissipadas e om elas parte da nossa humanidade.

As vidas pantaneiras e amazônicas gritam de dor a cada parte tomada pelo fogo. As lágrimas dessa dor se espalham em cinzas enquanto o governo minimiza os incêndios e desqualifica as instituições, os dados científicos para fazer valer um determinado projeto agro-mineral-pastoril. Nele, o Pantanal e a Amazônia não cabem. Precisam ser transformados – como já estão sendo - em outras paisagens. A quem elas servem? A quem elas beneficiam e quem lucra com o fogo?


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