Segunda-feira, 06 de Julho de 2020

Mulheres no Território da Solidariedade

Rede Solidária de Mulheres de Manaus segue em frente e já contabiliza mais de mil atendimentos a famílias que estavam sozinhas em suas angústias.


Mulheres de diferentes organizações feministas, religiosas e profissionais autônomas criaram, há três semanas, a Rede Solidária de Mulheres de Manaus – Pelo Direito de Ficar em Casa. Uma confecção nascida a partir da escuta profunda dos relatos feitos por outras mulheres da periferia socioeconômica da capital amazonense. Todas impactadas com a pandemia da Covid-19. A maioria delas vítimas da pobreza endêmica a que a população desta região é historicamente submetida.

Construir uma rede com esta finalidade impõe uma série de obstáculos. E desafia os melhores propósitos. Desafia a nós mesmos. Como transitar sobre a tênue linha que separa o apelo político-eleitoral, o assistencialismo interessado em resolver fardos mentais e enxergar para agir no território da solidariedade?

O desespero relatado por muitas mulheres com a proximidade da fome diante da absoluta falta de dinheiro para comprar um ovo, um pacote de arroz, de café, pão... Mulheres vizinhas de outras mulheres que sabem da arte de pechinchar, conhecem os horários estratégicos para adquirir alimentos nas feiras e mercados. Mulheres que têm no ‘Bolsa Família’ o único rendimento sob garantia ameaçada e quase sempre uma família numerosa que delas dependem para sobreviver.

Aprisionadas por um vírus e dispostas a querer viver, elas deixaram de ir e vir para vender artesanato, salgadinhos doces, essa infinidade criativa de transformar sobras e descartáveis em peças utilitárias, acessórios. As prateleiras de suas casas a cada dia ficavam mais vazias e a outra sombra da morte se aproximando sobre o comando de um volte às ruas. É esse cenário o companheiro cotidiano de milhares de mulheres pobres chefes de famílias desta cidade e em todo o Amazonas.

Tecida, a RSMM segue em frente e já contabiliza mais de mil atendimentos a famílias que estavam sozinhas em suas angústias. Algumas dezenas dessas mulheres, como me disse a ativista Nonata Correa, são companheiras do movimento feminista que viviam de seus micronegócios, do serviço como diarista, manicure. Em tantas reuniões e caminhadas para denunciar o feminicídio e combater a violência contra a mulher, elas estavam lá, determinadas, voz segura, mãos firmes ora cerradas para o alto ora animando outras mãos de mulheres em desespero.

É essa linha que separa uma coisa da outra e se mantém esticada como esperança, as vezes invisível, na ressignificação da existência humana. São alguns grãos de arroz, de feijão, um copo de café com leite que, reunidos, geraram o banquete em mesas desnudas e traz de volta o barulho das colheres nos pratos, dos copos, do mastigar a comida. Faz voar o sorriso em que a fome foi contornada.

Em meio aos ataques do vírus, o Fórum Permanente de Mulheres de Manaus (FPMM), o Observatório da Violência de Gênero do Amazonas e Coletivo Luisa Mahin atravessam as distâncias, afugentam o egoísmo, os defensores da morte e espalham os fios da utopia de mulheres realizadoras de sonhos dentro da batalha contra o mal.


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