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As Lições, em comum, não Aprendidas pelos gigantes Vale e Flamengo

Uma das maiores empresas de mineração do mundo, com quase 75 mil colaboradores atuando em todo o território brasileiro e em várias partes do mundo, e com grande impacto positivo na sobrevivência de tantas cidades, a Vale tem uma rica história ao longo de seus 77 anos de existência. O que falar então do Clube de Regatas do Flamengo, dono da maior torcida do país e uma das maiores do mundo? Ao longo dos seus 123 anos, a história rubro negra se confunde com a própria história do futebol mundial. Nos gramados, o mundo foi conquistado em 1981 e diariamente a cada momento em que uma criança nasce, já rubro negra, sem sequer saber porque, mas certamente com o mesmo orgulho de qualquer torcedor. Estas tragédias sujaram para sempre as histórias dessas instituições que, fatalmente, estarão, para sempre, tristemente associadas a morte de pessoas, estas sim, juntamente com suas famílias e amigos, as maiores vítimas destes mais que lamentáveis episódios. Os atuais dirigentes não foram dignos das instituições que representam, que, ao menos se portem à altura agora oferecendo um mínimo de dignidade às vítimas e aos danos provocados. 13/02/2019 às 08:43
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Fundado em 17 de novembro de 1895 como um clube de regatas, embora as comemorações de seu aniversário aconteçam em 15 de novembro para coincidir com o feriado nacional de Proclamação da República, o Flamengo apenas passou a praticar o futebol quando ex-associados e ex-atletas do Fluminense criaram, em 8 de novembro de 1911, o seu departamento de esportes terrestres. Muita de sua popularidade se deve a esta origem, um contraponto ao que o Fluminense, com maior identidade às classes mais abastadas da sociedade, representava. Tampouco o fato de Bangu e Vasco terem sido as primeiras equipes a aceitarem atletas negros em seus elencos tirou do Flamengo esta forte enraizamento popular. Logo a paixão de ser rubro-negro se espalhou pelo país, sobretudo a partir nos anos 1940, quando as mesmas antenas instaladas pelas forças aliadas ao longo da II Guerra Mundial, para captar sinais enviados por navios inimigos, foram utilizadas para transmitir através do rádio os jogos do futebol carioca, em um período de muitas conquistas da equipe nos campos. A proximidade com a música, sobretudo o samba, também foi um outro fator importante para esta popularidade: “nenhum clube de futebol foi tão cantado como o Flamengo”. Impossível também negar a lindeza de um hino que tenha afirmações amorosas tais como “…uma vez Flamengo, sempre Flamengo…” ou “… eu teria um desgosto profundo, se faltasse o Flamengo no mundo…”. Salve Lamartine Babo, seu autor. “Consagrado no gramado”, a partir dos anos 1970, o clube perpetuou um outro importante lema “Craque, o Flamengo faz em casa”. Não é por menos que tantos atletas formados em suas categorias de base fizeram história, com muitas conquistas no próprio clube e em tantos outros pelo país e o mundo. Para citar apenas um, Zico, cujo dinheiro que o clube recebeu devida sua venda à equipe italiana do Udinese, nos anos 1980, foi utilizado para a compra do terreno onde seria construído o Centro de Treinamento George Helal, o Ninho do Urubu. Em que pese o grande sucesso do clube em campo e junto aos seus torcedores, seguidas más administrações impactaram negativamente, ao longo de décadas, os cofres do clube, o que culminou em uma dívida próxima a R$ 800 milhões em 2012, a maior entre todos no Brasil. Foi esta a herança recebida por Eduardo Bandeira de Mello que assumiu em 2013 a presidência do clube. O início de um processo de reestruturação financeira culminou no aumento da receita, que triplicou em cinco anos ao subir de R$ 212 milhões em 2012 para R$ 648,7 milhões em 2017. Além disso, uma gestão rigorosa nos gastos, permitiu também investimentos em áreas importantes, uma delas, no Centro de Treinamento que passou a ser ‘cantado’ como um dos melhores do mundo. Novos ares, os melhores, pareciam se perpetuar no clube. No começo do ano, em 8 de janeiro de 2019, o Flamengo protagonizou a maior contratação da história do futebol brasileiro ao tirar o meio-campista uruguaio Arrascaeta do Cruzeiro por R$ 63,7 milhões. Um mês depois, em 8 de fevereiro, quatro containers, utilizados como dormitórios para garotos entre 14 e 17 anos, foram dominados pelo fogo, provocando a morte de 10 adolescentes.

O principal objetivo de aprender está intimamente ligado com a intenção de crescer. Sendo assim, longe de se restringir à questões pontuais. A partir do momento em que a possibilidade de aprender nos é colocada à frente, não há limite algum que possa definir até onde poderemos chegar. Há, no entanto, alguns obstáculos, quase que intransponíveis, que impedem o aprendizado. Eles, muitas vezes, têm a valia de ‘cabrestos’. Apenas isso explica que tantos erros se repitam, tantos ao nosso lado, e poucos sirvam para que tantas instituições e pessoas possamos aprender com eles. Neste sentido cabe ressaltar algumas de tantas semelhança entre as tragédias da barragem de Brumadinho, pertencente a Vale, e a do Centro de Treinamento George Helal, de propriedade do Flamengo.

1. Respeito à Vida

A construção de áreas de convívio e/ou de passagem de pessoas no caminho a ser feito pelos resíduos em eventual caso de rompimento de uma barragem é um lamentável indício da importância que está sendo dada as vidas destas pessoas. Algo similar a decisão de alojar seres humanos em um grupo de containers com apenas um caminho de saída em caso de um incêndio. Agrava-se ainda o fato das janelas dos containers contarem com barras que dificultaram ainda mais as frustradas tentativas de fuga. Aliás não há justificativa plausível alguma para a presença das mesmas a não ser o intuito de impedir a passagem de pessoas. Neste sentido, atenderam o objetivo. No caso da tragédia no CT do Flamengo ainda há um importante agravante pelo fato de se trataram de menores de idade que deveriam estar sob vigilância próxima de algum responsável do clube. O uso de explicações vazias sobre as condições oferecidas para atletas da base em outros clubes serem bem inferiores a estas presentes no CT rubro-negro é plenamente descabível e, ao que parece, possui apenas um objetivo, caracterizar como acidente, algo previsível. Acidente é algo que acontece por conta de uma situação inusitada sem que possa haver previsão prévia e sobre a qual, por conta disso, não há como tomar ação que a previna. Não foi o caso para ambas as situações.

2. Relação com Poder Público e Áreas de Interesse

A influência da Vale junto às várias instâncias do poder público sobretudo por conta do impacto em suas receitas, o que torna possível certa ingerência na elaboração e eventuais readequações de leis e normas que regulamentam os setores onde atuam possui uma origem similar ao fato do Flamengo ter sido autuado cerca de 30 vezes pela Prefeitura do Rio de Janeiro, por falta de alvará no Centro de Treinamento, ter o mesmo lacrado, por determinação da Secretária da Fazenda, em outubro de 2017, e ainda assim continuar em funcionamento. Junta-se a isso, a lamentável forma como orgãos e empresas que atuam próximo a estas entidades podem se portar. Fornecedores, consultores, prestadores de serviços, entidades de fiscalização, orgãos de imprensa, jornalistas e tantos outros não podem se eximir da responsabilidade de pontuar os erros cometidos por estas instituições pelo temor de serem prejudicados em eventuais futuras contratações e/ou trabalhos a serem prestados. As empresas devem agir de forma ética, de maneira plenamente independente e alinhada às melhores e seguras práticas por si só, não simplesmente para cumprir normas, regras e/ou compromissos comerciais. Ao que parece agir desta forma será uma nova prática para ambas as instituições.

3. Treinamento dos Colaboradores e Stakeholders

Embora a Vale tenha promovido ações junto à população e colaboradores sobre como agir em caso de novo rompimento de barragem, relatos de sobreviventes da tragédia em Brumadinho, bem como os desdobramentos trágicos do ocorrido, indicam que as mesmas se mostraram sem qualquer valia. Sequer a sirene de alarme soou, segundo o presidente da Vale, Fabio Schvartsman, por ter sido ‘engolfada’ pela lama. Algo mais que lamentável que beira o amadorismo. Quanto ao Centro de Treinamento do Flamengo, imagens captadas durante o incêndio mostraram, inicialmente, que alguns sobreviventes caminhavam sem demonstrar qualquer preocupação ainda que muita fumaça aparecesse ao seu redor. Pareciam não ter nocão do que estava acontecendo. Os atletas, moradores do CT, não receberam qualquer tipo de treinamento sobre como se portar em uma situação similar. Sequer orientações, dadas em sessões de cinema espalhadas pelo país, foram compartilhadas. Ainda que o incêndio tenha se intensificado em pouquíssimo tempo, cada segundo perdido foi decisivo.

4. Sistema de Alarme

Em uma tragédia das proporções desta que ocorreu em Brumadinho, onde uma onda de lama se deslocou a uma velocidade próxima de 70 Km/h, mera sirene de alarme teria pouca valia no intuito de evitar tantas mortes. Ainda assim, como comentado acima, a mesma teria sido engolida pela lama, o que evidencia seu posicionamento equívocado e/ou até mesmo a pouca importância dada a esta condição de risco. Algum outro sistema deveria ter sido responsavelmente instalado, assim como no caso do Centro de Treinamento do Flamengo. O início do combate ao incêndio, segundo relatos, se deu por volta de 20 minutos após a primeira chamada feito ao Corpo de Bombeiros, quando já havia 10 mortos.

5. Análise de Riscos

O impacto potencial provocado por conta de um rompimento de barragem próximo às areas habitadas e de um incêndio em um local onde há pessoas dormindo é a morte. Uma adequada análise de riscos nestes empreendimentos teria permitido a correta identificação e, a partir de prévio estudo, a indicação de ações mitigatórias. Neste sentido é de pouca valia atribuir responsabilidade ao Poder Público, não que ele não tenha alguma, mas o fato é que tanto Vale como Flamengo têm plena responsabilidade pelas vidas de seus colaboradores durante o exercício de suas funções profissionais.

6. Comportamento diante a Tragédia

Situações como estas, ainda mais por envolveram mortes demandam ações imediatas que exigem ‘mostrar a cara’. Em ambos os casos, foram quase 6 horas de silêncio dos presidentes da Vale e do Flamengo. No caso da mineradora, sua entrevista foi repleta de desconhecimento sobre o que ocorrera, bem como sobre os impactos causados, o que se repetiu ao longo dos próximos dias com informações desencontradas. Dias depois um dos representantes da equipe jurídica da Vale, o advogado Sergio Bermudes, disse “a Vale não vê responsabilidade. Nem por dolo, que é infração intencional da lei, nem por culpa, que é a infração da lei por imperícia, imprudência ou negligência. Ela atribui o acontecido a um caso fortuito que ela está apurando ainda”. Um pronunciamento de uma infelicidade ímpar, em que pese o fato dele ter sido, em seguida, desautorizado pela direção da empresa. Já quanto ao Flamengo, seu presidente, Rodolfo Landim, se limitou a uma breve mensagem de lamento pelo ocorrido. Um dia depois, Reinaldo Belotti, o CEO do clube, esbanjou falta de empatia às famílias das vítimas ao dizer que a ausência de licenças e alvarás divulgada pela imprensa não tem relação com o acidente, e que o local era ‘adequado’, ‘confortável’ e não era um ‘puxadinho’ e o elogiou: “Estamos falando em alojamentos modulares que foram instalados em 2011. Só queria lembrar os senhores que, por esse alojamento, passaram vários times titulares do Flamengo, jogadores consagrados como, por exemplo, Ronaldinho Gaúcho, Vágner Love, e outros. (…) Foi utilizado também pela seleção olímpica de futebol do Brasil.”

7. Disposição para Aprender

Cerca de três anos atrás, a Vale vivenciou de perto a tragédia na barragem do Fundão em Mariana, controlada pela Samarco, um empreendimento seu em conjunto com a BHP. Ainda que seu presidente, ao assumir o cargo em maio de 2017, tenha afirmado “Mariana nunca mais”, a tragédia em Brumadinho comprovou que as ações tomadas para prevenir novo rompimento se mostraram inócuas. Ao que parece muitos fatos ocorridos em Mariana podem ter sido registrados, mas a verdade é que não surtiram em qualquer aprendizado. Erros se perpetuaram. Quanto ao Flamengo, não é a primeira vez que pessoas acabaram por ser encurraladas em meio a um incêndio. Em 27 de janeiro de 2013, 242 pessoas morreram em um incêndio na boate Kiss na cidade gaúcha de Santa Maria. A distância desta outra tragédia ao Rio de Janeiro não serve de justificativa, tampouco o fato de não dizer respeito a um Centro de Treinamento e/ou a um Clube. Toda e qualquer instalação e/ou empreendimento está sujeito a uma situação de mesma gravidade.

8. Solução Técnica Adequada

Há conhecimento técnico e básico disponível de forma consolidada para a adoção de soluções adequadas, eficientes e seguras em ambos os casos. A metodologia construtiva de barragem de rejeito a montante só se justifica segundo um critério de custo. Ainda assim, no caso de implantação, há meios eficazes de monitoramento que garantam a gestão dos riscos incorrentes a este tipo de construção. Não há barragem no mundo que não ‘sinalize’ antecipadamente potenciais possibilidades de rompimento. Quanto as instalações utilizadas como dormitórios para atletas no Centro de Treinamento, a situação chega a ser constrangedora. Containers jamais serão locais adequados para pessoas dormirem. Sua utilização é indicada para ser um espaço de escritório avançado e/ou temporário onde não é possível a construção de uma edificação. A solução container só se justifica pelo critério custo. Quanto ao curto-circuito, provável fator de ignição do incêndio, um mero dimensionamento adequado no projeto de instalação elétrica com uso de dispositivos de proteção contra surtos elétricos (DPS) teria condição de evitar a queima de equipamentos elétricos e, consequentemente, o incêndio.

9. Prioridade em Aspectos Financeiros

Em menos de um ano atrás, o presidente da Vale, Fábio Schvartsman, comemorava o fato “o mundo inteiro quer nosso minério, então vamos atender o desejo deles”. No ano de 2017, o lucro da empresa tinha sido 28% maior em que pese os investimentos terem os menores desde 2005. A situação de melhoria financeira no Flamengo também tem sido destacada em prosa e verso pela imprensa em geral, sobretudo a partir da gestão do grupo comandado por Eduardo Bandeira de Mello. Em 2017 o rubro negro se tornou o clube mais valioso do Brasil ao alcançar uma receita anual próxima aos R$ 650 milhões, cerca de R$ 150 milhões a mais do que o segundo colocado, o Palmeiras. A evolução financeira é algo almejado e legítimo para qualquer entidade privada, ainda que, no caso Flamengo, se trate de um clube, é salutar que a melhoria dos aspectos econômicos potencialize as conquistas esportivas. No entanto, o crescimento das receitas e lucratividade devem estar suportadas pela adoção das melhores práticas de gestão de pessoas, responsabilidade social e ética. Não é difícil considerar que maiores investimentos em segurança poderiam ter evitado ambas as tragédias.

10. Respeito à História das Instituições

Uma das maiores empresas de mineração do mundo, com quase 75 mil colaboradores atuando em todo o território brasileiro e em várias partes do mundo, e com grande impacto positivo na sobrevivência de tantas cidades, a Vale tem uma rica história ao longo de seus 77 anos de existência. O que falar então do Clube de Regatas do Flamengo, dono da maior torcida do país e uma das maiores do mundo? Ao longo dos seus 123 anos, a história rubro negra se confunde com a própria história do futebol mundial. Nos gramados, o mundo foi conquistado em 1981 e diariamente a cada momento em que uma criança nasce, já rubro negra, sem sequer saber porque, mas certamente com o mesmo orgulho de qualquer torcedor. Estas tragédias sujaram para sempre as histórias dessas instituições que, fatalmente, estarão, para sempre, tristemente associadas a morte de pessoas, estas sim, juntamente com suas famílias e amigos, as maiores vítimas destes mais que lamentáveis episódios. Os atuais dirigentes não foram dignos das instituições que representam, que, ao menos se portem à altura agora oferecendo um mínimo de dignidade às vítimas e aos danos provocados.