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Dez das Lições não Aprendidas pela Vale

Pouco menos de um ano atrás, o presidente da Vale, Fábio Schvartsman, o mesmo que ao assumir o cargo em maio de 2017 ressaltou que seu lema era “Mariana nuca mais”, em entrevista à revista Época afirmou: “o mundo inteiro quer nosso minério, então vamos atender o desejo deles”. A convicção de que tudo ia muito bom com a empresa se baseava principalmento no fato de toda a produção do ano já estar praticamente vendida e também por conta de no ano anterior, 2017, o lucro da empresa ter sido 28% maior em que pese os investimentos forem os menores desde 2005. Segundo ele, a mineradora vivia em “céu de brigadeiro” devido a uma conjuntura de mercado que combinava crescimento da economia mundial, aumento nos preços internacionais do minério e maior volume de produção da empresa. 30/01/2019 às 06:55 - Atualizado em 30/01/2019 às 06:56
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Pouco menos de um ano atrás, o presidente da Vale, Fábio Schvartsman, o mesmo que ao assumir o cargo em maio de 2017 ressaltou que seu lema era “Mariana nuca mais”, em entrevista à revista Época afirmou: “o mundo inteiro quer nosso minério, então vamos atender o desejo deles”. A convicção de que tudo ia muito bom com a empresa se baseava principalmento no fato de toda a produção do ano já estar praticamente vendida e também por conta de no ano anterior, 2017, o lucro da empresa ter sido 28% maior em que pese os investimentos forem os menores desde 2005. Segundo ele, a mineradora vivia em “céu de brigadeiro” devido a uma conjuntura de mercado que combinava crescimento da economia mundial, aumento nos preços internacionais do minério e maior volume de produção da empresa.

Em tempos de euforia e grande encantamento poucas coisas coisas podem garantir nosso crescimento de forma consistente, uma delas, certamente, é a humildade. Não é necessário passar por dificuldades para tê-la, mas assumir eventuais erros cometidos no passado é o primeiro passo para perpetuarmos o melhor dos caminhos. Infelizmente sequer rastro de sua presença estava presente na realidade desta organização. Lição aprendida consiste no aprendizado comprovado sobre conhecimentos e/ou ações tomadas, certas ou erradas, que visam manter, corrigir e/ou melhorar determinado resultado ou performance, e que passaram a ser devidamente consideradas e/ou incorporadas ao dia a dia. Destaco dez, das muitas lições não aprendidas por esta que é uma das maiores empresas do mundo. Oportunidades jogadas fora que se transformaram em possíveis atos que contribuíram para a morte de tantas pessoas e animais e danos perpétuos ao meio ambiente.

1.    Relação com Poder Público

Se nota certo conflito. Apenas isso justifica, por exemplo, que regras para obtenção do licenciamento ambiental tenham sido alteradas em prol de maior agilidade. Graças a isso, em alguns casos, houve o rebaixamento do potencial de risco das barragens, a do Corrego do Feijão foi uma delas, e por conta disso as licenças prévias, de operação e de instalação passaram a ser concedidas simultaneamente. Representantes das empresas de mineração aprovaram tal decisão sob a justificativa de redução da burocracia. Muitas das cidades que abrigam não apenas estas barragens de rejeitos, bem como as operações das empresas de mineração são basicamente mantidas financeiramente por suas atividades.

2.    Análise Técnica das Barragens de Rejeitos

A engenharia do país é especializada na construção de barragens e certamente quando feitas de forma efetiva, as vistorias e análises técnicas têm plenas condições de indicar riscos potenciais de rompimento a partir de acompanhamentos sistêmicos e contínuos. Análises pontuais e/ou, como muitas vezes acontecem, visuais não podem sequer serem consideradas como de alguma valia técnica. Hoje em dia há cerca de 30 agentes públicos em todo o país alocados para a vistoria de quase 800 barragens de rejeitos de mineração (por volta de 140 pertencentes à Vale). Devido a isso, o papel de vistoriar as barragens passou a ser feito de forma efetiva por suas próprias proprietárias. Algo que se sobrepõe as meras responsabilidades legais.

3.    Juniorização dos Profissionais

A substituição de profissionais mais experientes por mais jovens sem um histórico consistente de participações em projetos similares e/ou de maior complexidade é algo que tem acontecido com certa frequência não apenas no segmento de engenharia. A questão que motiva tal fato é muito rasa, a redução de custos com salários, já os resultados são profundos, erros banais no desenvolvimento de atividades que, por conta disso, se tornam em potenciais geradoras de frequentes acidentes que historicamente sempre foram raros ou inexistentes.

4.    Análise de Riscos

Após um acidente como o ocorrido na barragem de Mariana se tornou ainda mais imprescindível que todas as barragens da empresa passassem por um processo rigoroso de análise de riscos através do qual seriam identificados riscos possíveis, suas possibilidades de ocorrência, os potenciais danos e indicadas as ações mitigatórias em prol da redução e/ou exclusão dos riscos. Fato é que um processo de análise de risco só possui alguma valia quando se investe também na gestão dos mesmos através de acompanhamento sistemático e tomadas de ações periódicas. Tiveram cerca de três anos para isso e ao que parece, os resultados obtidos foram os piores possíveis.

5.    Gestão de Stakeholders

Segundo inúmeros depoimentos de vítimas, muitos de seus parentes e de moradores próximos a barragem que cedeu em Brumadinho , a Vale não tem se mostrado presente. Ausência de informações, que quando surgem são desencontradas, evidenciam  despreparo em atender as demandas que agora são ainda mais urgentes. A população está com medo e ainda mais assustada por saber que as vítimas de Mariana ainda sofrem com certo descaso, muitas delas ainda vivem com auxílio aluguel em que pese o fato de terem tido suas casas devastadas pelo mar de lama. Ao que parece, em ambos os casos, jamais foram treinados sobre como agir e/ou informados a quem recorrer caso ocorresse este tipo de situação.

6.    Disposição para Aprender

Cerca de três anos atrás, lamentavelmente de uma forma muito cruel devido as mortes e aos danos pérpetuos ao meio ambiente, a Vale, o Poder Público e tantos outros atores envolvidos tiveram a oportunidade de aprender sobre como tomar ações preventivas que impedissem a repetição de episódio similar. Acidente é algo que acontece quando situações inesperadas se encontram. Apenas a arrogância justifica a falta de humildade em assumir seus erros, que é o primeiro passo para que eles se repitam, e a partir daí construir um caminho verdadeiro de crescimento. Ao que parece, nada foi aprendido, por falta de capacidade para tal ou por pleno desinteresse.

7.    Solução técnica segura para Barragens de Rejeito

A atual metodologia construtiva utilizada para construção de barragens de rejeitos está baseada no uso do próprio material armazenado. Esta solução consiste em uma alternativa pautada pelo menor custo envolvido. Não se trata de qualquer grande desafio tecnológico a construção de barragens mais seguras para a contenção de lama, uma vez que existem inúmeras alternativas técnicas, muitas delas sobre as quais a engenharia brasileira é considerada referência. Quando interesses econômicas norteam uma realidade, não há espaço para excelência operacional tampouco ambiente seguro.

8.    Plano de Contigência

Novamente sequer o alarme de rompimento da barragem foi ouvido, o que é uma provável evidência que ele não tenha funcionado. No mesmo dia do acidente, o presidente da Vale, em sua primeira entrevista, ressaltou não saber o que tinha acontecido, apenas que houvera um rompimento. A apresentação de laudos de empresas internacionais ressaltando a segurança da barragem soa como um ato infantil. Informações desencontradas também quanto as listas dos desaparecidos bem como sobre onde as famílias devem se cadastrar para obter informações sobre os mortos, assim como aconteceu em Mariana, se repetiram. Não há valia alguma em ‘pedir desculpas’ quando nada é feito para que o erro seja repetido.

9.    O Valor da Vida

A presença de uma área administrativa e/ou um refeitório, onde há presença e/ou fluxo de pessoas, justamente no caminho do fluxo a ser seguido pelos rejeitos em um eventual rompimento da barragem, sinaliza não apenas equívoco técnico mas a dimensão do valor que a empresa dá a vida de seus colaboradores e daqueles que pertencem à comunidade que a cerca. Inadmissível sob qualquer aspecto, a não ser pelo repugnante critério financeiro que jamais pode sobrepujar ao da vida, que não tenha sido providenciado o deslocamento destas construções, e, até mesmo, de outras propriedades privadas para locais seguros.

10.    Crença no “dois raios não caem duas vezes no mesmo lugar”

A perpetuação de erros que podem ter propiciado, desta vez, a morte e desaparecimento de quase 400 pessoas, de milhares de animais e incalculáveis danos ao meio-ambiente permite imaginar que a convicção de que acidente similar ao de Mariana não voltaria a acontecer estava apoiada no velho dito “dois raios não caem duas vezes no mesmo lugar”. Ainda que seja difícil de firmar, as mortes dizem por si só. Algo impressionantemente assustador.