Publicidade
Blogs

Porque não desisto

24/10/2018 às 08:30
Show maodesisto f8bffbae 86e2 4fbe 98b0 e0a69131f658

 “Zé, por favor, não procure mais saber coisa alguma sobre esta empresa projetista que quer fazer parceria conosco” foi com esta frase, em tom meio irritadiço, que meu chefe, diretor de uma das maiores empresas de engenharia e construção praticamente selou meu destino profissional.

Os anos que dedicara, mais especificamente, aquele último projeto do qual fiz parte me renderam oportunidades únicas. Minha ida ao Japão para desenvolver um contrato de parceria tecnológica com uma das maiores empresas mundiais de certo segmento não foi apenas a concretização de um sonho, mas a certeza que eu poderia, e muito, galgar qualquer cargo relevante em uma organização. Ao todo foram mais de 10 anos. Tantos aprendizados e conquistas, pessoais e profissionais. No entanto, os últimos momentos foram repletos de sentimentos difusos. A árdua subida na hierarquia da empresa me deu reconhecimento, mas trouxe com ele a proximidade à situações pouco nobres. 

A entrada de um novo parceiro em um importante negócio da empresa fora recebida com muito entusiasmo. Também assim enxerguei. No entanto, não demorou muito para que passasse a desconfiar daqueles sorrisos tão fartos sem qualquer resultado efetivo. Este parceiro trouxera junto uma empresa de projetos, uma exigência para que o negócio fosse concretizado. Mas ela existia apenas no papel. Não foi difícil identificar os donos dessa empresa e tantas outras que compunham um emaranhado de cnpj’s que não cheiravam ‘fio queimado’. Eram puras cinzas. Foi doloroso saber que aquilo tudo parecia estar sustentado sob areia movediça. Pior, eu também ali estava. Naquele momento, já não era mais possível achar que era apenas uma impressão. Me pautei de subsídios certos e fui ao encontro do meu diretor. O longo período de convívio com ele, me dava a certeza: sairíamos do negócio. Ledo engano. Talvez o fim da inocência.

Sua posição, descrita no começo do texto, não foi um ‘tapa na cara’, e sim na alma. Uma mistura de decepção e de ‘e agora, o que fazer?’ me preencheu plenamente e subsidiou minha decisão de pedir demissão. Decisão complicada. Comunicar isso foi ainda mais duro. Aos olhos de muitos, minha motivação só poderia ser uma melhor proposta de trabalho de alguma empresa concorrente. Não era. O primeiro dia ‘desempregado’ foi repleto de mensagens, cuja quantidade, obviamente, se reduziram ao longo das semanas seguintes. Propostas de trabalho vieram, de concorrentes. Todas devidamente recusadas. Naquele momento, fazer parte daquilo seria assistir ao mesmo filme. Mais que isso, ser um de seus protagonistas.

Abrir minha empresa de consultoria foi mais que uma alternativa planejada, um meio de sobrevivência. Nos primeiros momentos, com poucas expectativas. Nos seguintes, ainda assim. Nos atuais, a vida que segue. Desafios diários, conquistas comemoradas intensamente, perdas abraçadas como aprendizado, um difuso conjunto de sentimentos. Quantas vezes, a vontade de voltar a bater aquelas portas que deixei para trás, veio em minha mente? A convicção de estar fazendo o que é certo, respeitando meus valores, aqueles que me fizeram chegar até aqui tem sido meu alicerce. Sendo assim, ainda que a incerteza bata a minha porta, e quantas vezes mais ela irá assim fazer, eu insistirei no melhor dos caminhos, aquele pautado pela retidão. Com certeza, não estou sozinho.

Em tempo, quanto a propalada parceria de outros tempos, coube ao tempo, sempre ele, comprovar a equívocada decisão. Também proporcionou isso a muitos daqueles que dela usufruíram. Meu diretor, por exemplo, não deve direito de escolher para ‘pedir para sair’. Outros chegaram a ser ‘levados’. Assistir a isso tudo como espectador também foi muito triste. Vida que segue e nós com ela. Porque não desisto.