Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2020

O resgate do brasileiro cordial

Por Liege Albuquerque - Mestre em Ciências Políticas pela USP e jornalista com diploma da UFAM.


18/07/2019 às 15:53

As escolas onde formei minha base em política foram o jornalismo raiz e pé na lama (que continua me ensinando, seja ao apurar reportagens ou aprendendo com meus alunos), além dos quatro intensos anos em que fiz mestrado, bebendo conhecimento das fontes acadêmicas mais respeitadas do país. Meu aprendizado foi democrático, falando quando tinha o que dizer e ouvindo com cordialidade, educação e polidez o divergente, algo possível durante os anos 90. Nos debates, mesmo no mais acalorado deles, jamais tinha apelação para amargura, vômitos de ódio, arrogância, sarcasmo ou xingamentos.

Descrevo isso para demonstrar que ali, meus mestres, ministros e ex-ministros de FHC e posteriormente de Lula, e alunos filhos de ministros, ex-governadores, deputados e senadores (e eu ali no meio, filha de um “caminhoneiro dos rios” da Amazônia e uma professora primária), tinham tudo para serem soberbos e arrogantes. Mas não eram, e conservo algumas amizades sinceras até hoje. Nós, alunos, éramos todos jovens, na casa dos 20 e poucos anos, aprendendo e debatendo, nos respeitando com ideologias muito diversas, de muitas esquerdas e direitas. E os mestres, honoráveis, humildes e bem humorados com são os sábios, especialmente meu orientador querido, Gabriel Cohn.

Não digo aqui que quem não fez faculdade ou mestrado, um Lula chão de fábrica, não pode debater, claro que não é isso (o que vem detonando o Brasil também é a falta de interpretação de texto). Cada um de nós deve ser estimulado a exercer sua cidadania, reclamar do que acha errado e falar o que pensa, mas deve ter a humildade de estudar, de ler sobre o assunto para ter o quê debater, ter o quê rebater com lastro. Porque vocabulário para debater não são palavrões em série ou kkkkk. Essencial, também, seria clicar no texto e ler antes de criticar o post pelo título. Mas é regra geral: quanto mais conhecimento, mais humildade e tranquilidade no debate. Quanto menos conhecimento, mais agressividade e cinismo ao arrotar suas ideias sem nexo ou frases sem lógica ou efeito, a não ser chocar ou lacrar.

O que estamos vivendo agora, e que foi incitado pelo atual presidente da república durante a eleição, é uma guerra civil de extremos. Vejam bem: incitado por ele sim (há papers  e monografias sobre o assunto), mas agora os dois extremos estão se atracando nas redes sociais diariamente. A extrema-direita de Bolsonaro contra a extrema-esquerda difundida por diversos partidos e sem partido também. Ontem fui convidada a entrar num grupo no Facebook chamado “Antifascista baré”. Quase entrei, desisti quando li a apresentação: “Fascistas têm de ser enforcados”. Pois é, sou antifascista e contra a pena de morte, não me encaixo. E quanta incoerência no uso do termo fascismo, não?

Estamos vivendo num país sem cordialidade, onde há pessoas ditas de direita comemorando as vaias e violência ao jornalista Glenn Greenwald e seu marido, o deputado David Miranda, em Paraty, e ditas de esquerda comemorando a jornalista Miriam Leitão e seu marido, o sociólogo Sérgio Abranches, serem desconvidados a uma feira de livros no sul do Brasil. E mais surreal ainda, desconvidados porque gente de direita exigiu da organização do evento pois considera os dois de esquerda. Precisamos garantir a todos, jornalistas ou não, o direito à livre expressão. Todos.

Me recuso a entrar nessa insanidade, nessa arrogância de achar que minha ideia, que minha ideologia, que o quê acredito é a verdade suprema e sair por aí ofendendo quem pensa diferente de mim. Quero questionar, debater argumentos, com linguajar acadêmico quando necessário e com este linguajar do meu texto aqui, que todo jornalista aprende a falar, que é o do povo. Quero entrar num papo e sair convencida que Eduardo Bolsonaro merece ser embaixador mais que um diplomata que rala em altos estudos de política internacional no Rio Branco. Me convença disso, com argumentos, que eu mudo de ideia. Mas nesse exemplo que dei até hoje não ouvi nenhum argumento plausível sobre isso, só a “querência” do presidente. O absurdo do nepotismo explícito é vergonhoso. E na página do presidente li gente xingando o Itamarati de “antro de viadagem” e que Eduardo “era macho para ser embaixador”.

Desde quando a escolha sexual é argumento? Desde quando a escolha sexual de uma pessoa mede sua competência? Desde que um presidente cheio de ranço de preconceitos assumiu o governo. Anteontem o presidente anunciou também a suspensão de um vestibular para pessoas trans. Qual a justificativa? Nenhuma, só porque ele não quer mesmo. E serão suspensos vários medicamentos pelo SUS. E pobre adoece? Li cada meme indecente na internet sobre isso que nem vale a pena compartilhar aqui. Memes  não são argumentos políticos, são brincadeiras. Não se responde a um questionamento com um meme. Como diria um trecho da Bíblia que minha mãe gosta muito de repetir, há tempo para tudo, para brincar e para falar sério.

Enfim, temos muitas mudanças à frente e precisamos, todos, estar alertas. Aliás presumo que quem votou em Bolsonaro não lhe deu carta branca, certo? Não deveria. Penso como Einstein, “meu ideal político é a democracia, para que todo o homem seja respeitado como indivíduo (e suas individualidades) e nenhum venerado”. Nenhum: idolatria é sempre cega. E agora estamos, todos nós, quem votou ou não neste presidente, com apenas 15 dias de abertura para análise pública do “Future-se”, que pode selar o destino das universidades públicas do país. Vá lá, leia, opine, vai até o início de agosto.

Acho que estamos vivendo um momento crucial e cruel, de guerra de ódio e diferenças, de construção de muros ideológicos e virtuais. E de uma resistência que beira o infantil, com fogo amigo a quem, de uma maneira ou de outra, está na luta por um Brasil melhor, mais inclusivo, como bem pontuou meu governador preferido, Flavio Dino, na entrevista ao The Intercept. Precisamos nos unir pelo Brasil, por nós todos. Vivemos num país capitalista e é possível justiça social em países capitalistas, a Dinamarca, Islândia, Noruega, Suécia e Finlândia estão aí para comprovar isso.

Para isso, cabe a cada um de nós não entrar nessa disputa sem fim e sem nexo, e só entrar em debates se for com educação de ambas as partes, com respeito, e com o único objetivo de sair da discussão mais enriquecido de ideias e partir para a ação. Se não for assim, não vale a pena gastar neurônio. Embora a famosa teoria do homem cordial no imprescindível “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, o pai de nosso Chico, seja mais profunda que essa ideia, precisamos regatar nossa fama de brasileiros cordiais, de mais coração que razão, mais suavidade, mais uso do diminutivo para demonstrar carinho. No Amazonas temos nosso lindo, hour concours, “maninho”.

Maninhos, vamos nos mirar no exemplo do sorriso diário das caixas da panificadora Eliza de Manaus e devolver o sorriso. Viu uma coisa que te irritou na internet? Não entre em bate-boca vazio, passa por cima e curte a foto de cachorros, de gatos, do Cauã Reymond, outro gato, uma criança brincando na praia, um click de cima da torre do Musa, um close na torta de cupuaçu com chocolate da Cat´s, fotos dessas coisas boas da vida. Evitemos as tretas virtuais, pois fora das redes sociais ainda há muita cordialidade, eu pelo menos encontro em todos os lugares que frequento. E que a data limite para a nova era de Chico Xavier, 20 de julho, este sábado, seja para nos trazer mais paz interior, para que a gente devolva exatamente isso ao mundo exterior, paz. E amor. Estamos precisando.

P.S. Tenho amigos e gente que não conheço me perguntando desde a semana passada se vou me candidatar nessas eleições. Tenho nem dinheiro nem partido para investir em mim, gente. Votos acho que teria de uma meia dúzia de familiares, amigos e ex-alunos queridos. Vou fazer o curso do Renova BR, aprender mais sobre a prática política, buscar ir além do que já aprendi na academia ou como repórter. Me inscrevi, passei nas provas (adoro estudar, sou nerd) e hoje paguei a taxa simbólica de R$ 200 do curso,  que começa em agosto, todo online nessa primeira fase. Não vai doer.


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