Sábado, 22 de Fevereiro de 2020

Poupem nossas crianças, todas nosso futuro

Por Liege Albuquerque; a autora é mestre em ciências políticas pela USP e jornalista com diploma da UFAM.


25/07/2019 às 17:44

Em 1991, a imprensa começou a abrir fogo contra o ídolo com pés de barro, Fernando Collor, o queridinho caçador de marajás, batizado assim pela  mesma imprensa que o incensou e ajudou a eleger. Nesse afã para derrubá-lo, entrou no alvo o então ministro da saúde Alceni Guerra, que tinha feito uma licitação de bicicletas para agentes de saúde que os jornais taxaram de suspeita. Resumindo: no fim, era inocente.

E quem mais sofre com denúncias justas ou injustas contra políticos? Suas mulheres, nem tanto, algumas vibram. Mas seus filhos sim, e sempre. São os personagens mais vulneráveis e os alvos mais covardes na política, humilhados e vítimas de bullying da escola às festinhas, ao lado dos pais ou sozinhos quando a imprensa insiste em publicar seus rostos de forma criminosa.

Ficou famosa a foto, que não encontrei no Google (espero que tenham sumido com ela), mas está bem nítida em minha memória, de Alceni e o filho Guilherme, então com 11 anos, sentados no meio-fio num parque de Brasília, com suas bicicletas encostadas ao lado. Foi o que a imprensa quis, cruel e irresponsavelmente, para ilustrar as reportagens sobre a suposta licitação viciada das bicicletas.

Lembro que eu, começando no jornalismo em 1991, comentava esse absurdo com alguns outros colegas digamos, mais humanistas, sobre o absurdo que era expor o rosto da criança sem tarja preta ao menos. Inclusive Chico Caruso fez charge à época com uma tarja no rosto do garoto, o mínimo que podiam ter feito também na foto.

Alceni voltou à política há alguns anos e então relatou em algumas reportagens o sofrimento dos filhos à época. "Só quem sofre uma ataque pessoal da maneira como aquele causado pelas fotos com o meu filho sabe a dor que isso causa. Por causa da gozação dos colegas, ele teve que trocar de colégio", recorda. A perseguição à família, entretanto, não parou por aí. Nas comemorações do primeiro Dia dos Pais após o início do escândalo, ele foi convidado a participar de uma cerimônia na escola da filha Ana Sofía, então com 4 anos. “O meu presente (feito pelos professores) era um cartaz com as reportagens mais pesadas contra mim. Imagina o absurdo de fazer isso com uma criança que não sabia ler”.

Você pode vir aqui com o pensamento enviesado “ain, mas que pensem antes de fazer sacanagem para não fazer vergonha aos filhos”. Primeiro que nesse caso de Alceni foi comprovado que o ministro era inocente. Segundo que, se corrupto, eles já são exatamente isso e não pensam mesmo em proteger nem as minhas, nem as suas e nem as crianças deles. Por isso, cabe a nós assegurar essa proteção, se for causar vergonha, constrangimento ou humilhação que possa prejudicar essas crianças e trazer a elas traumas insuperáveis.

Quando o neto de Lula morreu de forma trágica, e em seu velório ele comentou sobre o bullying que a criança sofria na escola, que deplorável. Eu achei. E também achei desprezível terem protestado contra o ministro da Educação, Abraham Weintraub, em frente a seus filhos. Weintraub, depois de lançar o famigerado “Future-se”, que entrega as universidades públicas ao caça investimento privado para sobreviver, saiu em férias em Alter do Chão (PA), e foi sido alvo de protesto que, para mim, seria absolutamente legítimo se seus filhos não estivessem com ele no local. Se você assistiu ao vídeo, assista de novo treinando seu olhar compassivo e empático às crianças. A vontade é pegá-los pelas mãos (aliás, se eu fosse a mãe era o que tinha feito) e sair correndo dali. Imaginem o bullying que não irão sofrer na escola agora que estão assim com os rostinhos públicos?

Eu sempre insistirei no papel mais nobre da política, que é o de buscar a felicidade e o bem estar das pessoas, de negociar, de conciliar para que isto aconteça. O bem estar de todos, para mim, também inclui os filhos menores de idade de presos, por exemplo, a quem o Estado deve ajudar no sustento, fazendo o pai trabalhar na cadeia para isso. Os filhos não têm culpa dos pecados dos pais. E, na política, sempre aparecerão corruptos, corruptores e corruptíveis, alguns deles com filhos. Estes, podem seguir caminhos diversos de pais corruptos, porquê não? Acho que ajuda se os holofotes não se voltarem a eles com a etiqueta “filho de corrupto” na testa.

E nós, cidadãos e imprensa, podemos ajudar nisso tirando o foco delas, das crianças. Vejo o bullying virtual no Facebook agindo forte sobre os filhos da ex-primeira dama amazonense que foi presa e solta em tempo recorde. Ela já expunha as filhas em suas redes sociais públicas, daí foi uma decisão dela há tempos, eu sei, mas e fez com que os rostinhos ficassem conhecidos. Agora, sua prisão, por mais curta que tenha sido, deixou marcas para sempre em seus filhos, mas ninguém precisa lembrá-las cruelmente disso nas redes sociais, porque elas nunca vão esquecer.


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