Domingo, 21 de Julho de 2019

Tabata, o RenovaBR e a esquerda santa

Por Liege Albuquerque; a autora é mestre em ciências políticas pela USP e jornalista com diploma da UFAM.


11/07/2019 às 17:08

Um dos capítulos de meu e-book “Essa tal de política” (https://bit.ly/2XWp7tH)  explica didaticamente a origem dos termos direita e esquerda. Nasceu no século 18, à época da Revolução Francesa quando, na Assembleia Nacional Francesa, sentavam-se à gauche os jacobinos, que eram contra a monarquia e pregavam um regime que desse mais poder a eles, gente do povo. E os que sentavam à droite eram os girondinos, que apoiavam a monarquia e eram membros da aristocracia, os ricos.

Dessa origem conservamos ainda a raiz, mesmo quase três séculos depois. Não vou me alongar em teorias, mas sugiro a leitura imprescindível de “Direita e Esquerda, razões e significados de uma distinção política”, de Norberto Bobbio. Hoje há hibridismos e radicalismos, para um lado e para o outro, que foram surgindo ao longo dos anos, embora a essência continue, e a busca por igualdade tem sido o mote principal da esquerda e o da direita o de considerar a desigualdade natural na prática do livre-mercado.

Mas este artigo não é para dedilhar conceitos da ciência política. Só para colocar a teoria de direita e esquerda para afirmar que, sim, mesmo votando a favor da reforma da previdência, Tabata Amaral ainda pode ser de esquerda por conta de sua agenda de defesa à educação pública. Resgatando frase da Geni preferida da esquerda atual, a deputada federal do PDT, Tabata disse que essa polarização no debate sobre esquerda e direita atrapalha a democracia, “porque tira o foco das discussões que realmente importam”. Concordei à época e continuo concordando.

Com o voto sim de Tabata ontem à reforma da previdência, um voto para mim imaturo e equivocado, porque de inclusivo o texto não tem nada (qualquer um pode ler no https://bit.ly/2Y730ks ), a esquerda santificada focou seu ódio na parlamentar de uma forma cruel e machista. Bloqueei gente em minhas redes ontem que desejou a morte e câncer na deputada (assim como bloqueei gente que comemorou a facada em Bolsonaro, a morte do neto de Lula ou a de Paulo Henrique Amorim).

Concordo que seu voto sim foi cruel, decepcionante e estrategicamente desnecessário: o texto seria aprovado de qualquer jeito pelo rolo compressor do governo federal. Mas nas críticas à parlamentar, como também nas críticas a Dilma, há um inegável quê de misoginia: na oposição foram 11 deputados do PSB e 8 do PDT que votaram a favor da reforma, mas só ela de mulher, coincidentemente a única apedrejada.

Então em vez da lenga-lenga de tarjar Tabata disso e daquilo, a esquerda deveria estar repensando seu imobilismo por desunião, que deu, por exemplo, de bandeja, a presidência da República de presente à direita. Lula errou e Dilma muito mais. Mas a esquerda santa tem uma enorme dificuldade em sentar para admitir seus erros e adora apontar o dedo na cara de quem erra e não é de seu partido, mesmo que seja outro de esquerda. Aí vivemos nessa onda de ódio: enquanto a ignorância política impera no desconhecimento do processo legislativo-político nas redes sociais, também os próprios líderes partidários se incomodam com o voto de uma parlamentar em vez de estarem preocupados com os destaques que seriam votados no dia seguinte. Como se uma andorinha só fizesse verão: no Congresso tudo se aprova em blocos, em grupos.

Eu compreendo o descontentamento de todos com a política e os políticos, eu também estou com esse incômodo e uma sensação de impotência crescente. Mas o ódio e a intolerância não são aceitáveis e só nos coloca em guerra e não em caminhos para soluções. Dentro de uma mesma ideologia, de esquerda, pode haver discordância, por quê não?

Estudo e levo política muito a sério para sair esbravejando e xingando, prefiro argumentar. E vendo tanta gente crucificar o único movimento de formação de lideranças políticas gratuito e que se diz apartidário, há alguns meses me inscrevi no famoso RenovaBR. Passei nos testes de seleção e fui uma das escolhidas para fazer o curso, junto com outras pessoas no país. Tem gente de Manaus, tipo eu, que não sou filiada a partido algum, o Gustavo, que é do PSL, e o Gabriel que é do Psol.  Vou com a minha sede de aprender que não morre e com uma ideologia de esquerda soft, que prefere focar no que nos une e não no que nos separa. Se o Renova fizer lavagem cerebral e transformar uma pessoa de esquerda como eu numa neoliberal, eu juro que conto para vocês aqui.


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