Domingo, 15 de Setembro de 2019

Você é feminista e nem sabe

Por Liege Albuquerque; a autora é mestre em ciências políticas pela USP e jornalista com diploma da UFAM.


29/08/2019 às 17:04

Estamos no século 21. Se você é uma mulher que optou por casar, ter filhos e não trabalhar fora deve ao feminismo. Se você é uma mulher que optou por casar, trabalhar fora e não ter filhos deve ao feminismo. Se você é uma mulher que optou por não ter filhos, não casar e viver viajando deve ao feminismo. Essa palavra opção, para uma mulher, simplesmente inexistia há menos de dois séculos.

Foi o feminismo, aquela doutrina que puramente preconiza só e tão somente a igualdade em oportunidades e direitos entre homens e mulheres, que nos proporcionou os avanços que temos hoje, eu, você, sua irmã e sua filha pode ser e fazer o que quiser, sem imposição de ninguém. O feminismo nos empoderou a ter a profissão que quiser, o cabelo como quiser e sair de short ou de saia para onde quiser e de ser aceita e respeitada pelo que você optou por ser.

O feminismo é um movimento social que surgiu depois da Revolução francesa e que se fortaleceu no fim do século 19 e começo do século 20. O movimento não é o oposto de machismo, mas luta contra as manifestações do machismo na sociedade. E ser feminista não significa não adorar que um homem espere você passar e que segure a porta, que puxe uma cadeira ou lhe dê flores e chocolates. Ser feminista significa ser livre para gostar dessas atitudes em um homem ou não gostar, simples assim. Sou das que gostam, especialmente dos chocolates.

O objetivo final do feminismo é construir uma sociedade que ofereça igualdade de condições entre os dois gêneros e que nos tire da triste constatação de pesquisas, como do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que as mulheres ganham em média 30% menos que os homens para realizar a mesma função, mesmo até com mais estudo. Ou das tristes estatísticas de feminicídio, o crime tipificado assim, o homicídio cometido contra mulheres motivado por violência doméstica ou discriminação de gênero.

Pontuei o tema por ter sido uma das polêmicas bolsonaristas da semana, exatamente em cima de uma das mais difíceis bandeiras do feminismo, em ainda não permitirmos (nós, a sociedade) que a beleza notória do homem mais velho e grisalho seja também extendida à mulher mais velha e grisalha.

Compararam uma beleza de uma mulher de 37 anos com outra igualmente bela de 66 anos. Aí foi um enviesamento do debate para justificar o injustificável, da medição de currículo Lattes, da Michelle gordinha, da Brigitte magrinha, Michelle casada com um sexagenário barrigudo, Brigitte com um elegante quarentão e por aí vai. Sendo que são duas mulheres bonitas e pronto, cada uma na sua idade e, até onde sei, confortáveis em suas escolhas pessoais. Uma de casar, não estudar e não trabalhar, a outra de casar, estudar e trabalhar. Escolhas delas, opção delas. E quanto a envelhecer, presumo que a de 37 também queira chegar aos 66.

Por esse gancho fui fuçar um dos meus livros de cabeceira sobre o assunto, o “Mito da Beleza”, de Naomi Wolf, escrito em 1990. Nele, a bela escritora, hoje com 56 anos, desfiava sobre os padrões impostos, como ela frisa, impostos violentamente à mulher pela indústria da moda. Ser magra, de cabelos compridos e forever young. Ela aponta sobre a falta de opção da mulher em ser naturalmente o que quer ser ou que seu biótipo genético determina, mesmo depois de tantos avanços, avanços especialmente no mercado de trabalho (pensemos quem muitas vezes também empurrado pelas crises econômicas, que dificilmente permitem a uma família só o homem trabalhar).

“A verdadeira questão não tem a ver com o fato de nós mulheres usarmos maquiagem ou não, ganharmos peso ou não, nos submetermos a cirurgias ou evitarmos, nos trajarmos com esmero ou não, transformamos nosso corpo, nosso rosto e nossas roupas em obras de arte ou ignorarmos totalmente os enfeites. O verdadeiro problema é nossa falta de opção, que os estereótipos masculinos de ´ideal´ apontam”, diz um trecho do livro.

Como combater isso? Com autoconfiança, com autoestima inabalável. Com se amar e se aceitar como se é e quer ser.

E nos cercando com cada vez mais homens mais interessados no que você diz e pensa em vez de como você aparenta. Mais homens #HeforShe, cuja embaixadora é a doce Hermione, Emma Watson. Com frase dela termino o artigo como comecei, tentando desmistificar um termo tão lindo como o feminismo, movimento que tenho certeza que ficará cada vez mais forte com homens bem resolvidos lado a lado de suas mulheres, parceiras, irmãs e mães. “Muitas mulheres decidem não se identificar como feministas porque acreditam que isso é sinônimo de agressividade, de serem anti-homens e pouco atrativas. E não é assim, absolutamente”. Não mesmo.

* O movimento da ONU ElesPorElas (HeForShe) convoca homens e meninos como parceiros igualitários na elaboração e implementação de uma visão comum da igualdade de gênero que beneficiará toda a humanidade.


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