Sábado, 22 de Fevereiro de 2020

A Desesperança

Crônicas de Domingo - 18 de março de 2018


17/03/2018 às 00:00

Greve de policiais e bombeiros militares, possibilidade de greve de professores e ainda de Rodoviários. Assassinato da vereadora carioca Marielle Franco e as reações de ódio expressas nas redes sociais. Tem semana que não dá vontade de falar sobre absolutamente nada.

Talvez por que os assuntos repercutidos não passem de “mais do mesmo”, como no caso das greves. Nelas, não há e nem houve nada de novo no front. São um recurso necessário do trabalhador à garantia de direitos que lhe são negados e que talvez ainda venham a lhes ser negados em anos em que não haja eleição. Quer dizer, isso se não for greve de juiz federal em defesa do benefício de auxílio-moradia. Aí… bem, é tão óbvio que dispensa comentários.

Por outro lado, temos essa aberração odiosa no que diz respeito à morte da vereadora carioca. É tão absurdamente inacreditável transformar a morte de uma ativista de direitos humanos num pseudo-discurso-anti-bandido e querer justificar o crime com frases do tipo “trate bandidos como vítimas que um dia será você”, que fico me perguntando: que merda de sociedade é esta que estamos construindo?

Num país em que receber uma mala com R$ 500 mil de propina é crime que não é investigado, a gente sempre tem que se perguntar quem é, numa hierarquização de danos, o maior ou o mais bandido. Mas no fim sempre chego à conclusão que alguns têm seus “bandidos-favoritos”, que os representam. E que por mais justiceiros pareçam seus discursos, talvez se portassem bem pior que narcotraficantes caso lhes fosse dado acesso ao poder. É a tal da teoria da conspiração.

Vivemos assim um tempo onde tudo é relativo, menos o ódio e o pretenso debate entre “esquerda” e “direita”, que não aponta ao Brasil absolutamente qualquer direção, a não ser o caos de andar em círculos. Nessas horas, me preocupo com o rumo que as coisas estão tomando e a desesperança que ocupa nossas lacunas de futuro.

Às vésperas de eleições quase que gerais no País, as candidaturas ainda são as mesmas de sempre, só de roupa e botox novos. E as novas já tem cheiro de defunto velho. Onde isso vai dar? Precisamos nos perguntar, sob pena de virarmos uma nova Venezuela, comandada por senhores da razão e da moralidade, contra a imprensa “sabotadora e inimiga da nação”.

Eu, que nasci em 1966, talvez tenha pouco tempo, talvez 20 ou 30 anos a mais, para ver a conclusão deste circo-de-horrores. Mas penso em meu sobrinho, com 7 anos, a quem amo como se ama a um filho e me pergunto: que mundo estará reservado a ele, à tentativa de expressão de seu eu e de seus sonhos. A gente tenta, mas tá difícil, certas horas, de alimentar um sonho-feliz-de-país ou um “sonho-feliz-de-cidade”.

Outro dia, num papo com o meu quase-rebento (sim, conversamos muito), dei parabéns a ele pela festa de formatura do ABC, em que ele se saiu muito bem. E perguntei sobre um amiguinho dele, que não se portou lá assim tão bem. Bernardo, me pequeno, respondeu: “tio, ele estava triste, por que todo mundo tinha o pai perto, e ele não, o dele morreu”. Perguntei então quando havia sido a morte e ele me disse que talvez em 2015. Voltei à carga, todo adulto, dizendo: mas 2015 já faz tempo. E meu pequeno me responde: tio, quando foi que seu pai morreu? Não foi em 2015? O senhor ainda não sofre com isso? Deixa ele sofrer, do jeito dele, respeita. Calei-me e refleti. Tomara que o futuro nos reserve gerações assim! #Pensa


Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.