Sexta-feira, 23 de Agosto de 2019

A Federação

Artigo de domingo - 07 de Agosto de 2016


07/08/2016 às 00:00

Essa semana fiquei refletindo o quão complicado é para nós, amazonenses, sermos diferentes do restante do País e em quantos dilemas vivemos envolvidos. Ocupando 18% do território nacional, com uma grandeza natural indiscutível, todos os atributos que possamos enumerar de bacia hidrográfica, área de floresta preservada e biodiversidade parecem não poder nos garantir qualquer vantagem competitiva, ou respeito dos demais federados.

Recentemente, a série adolescente “Malhação” fez dois personagens protagonizarem um diálogo com frases como: "Você ir para Manaus é um desastre", "Eu desejo de todo o coração que uma onça te engula", "Manaus não é só índio não, tá?”. Erro dos autores, ou não, tenho quase certeza que essa deva ser sim a ideia de grande parte dos jovens das regiões Sudeste e Sul do Brasil. E como a série forma opinião, passará a ser ainda mais!

Em plena época de valorização do meio ambiente natural, nossas riquezas parecem apenas nos conferir aspectos de selvageria, de ausência de vida “civilizada”. Só servem de manchete nos momentos de devastação. E de nada adianta argumentar que somos um dos maiores pólos industriais da nação, etc & tal. Os ataques à Zona Franca, desferidos por outros estados, com interesses em transferir a produção industrial aqui sediada para seus territórios, são constantes.

Nem os argumentos da necessidade de uma atividade econômica que nos permita a preservação ambiental são capazes de convencer, de aliviar a pressão, sobre o pólo industrial de Manaus. E nos vemos nesse binômio díspare de ter que, ao mesmo tempo, sobreviver e preservar. Somos pobres, feios e moramos longe, numa federação branca e concentrada na banda setentrional do território, mesmo que esse perfil não seja o reflexo da grande maioria brasileira.

Até nas questões legais somos, de certa forma, prejudicados frente ao poder de um outro Brasil, tão diferente de nós. Dia desses estive num debate de construtores e um dos pontos levantados se relacionava ao código florestal nacional, que estabelece faixas de proteção de 5 a 100 metros nas margens dos rios – quanto maior largura do rio, maior a faixa. Considerando as dimensões dos rios da Amazônia e do Amazonas, inviabiliza-se por completo qualquer iniciativa na margem do Negro, por exemplo. A legislação permite alguma customização da norma à realidade dos municípios. Entretanto, falta interesse.

E seguimos assim, enxergados de maneira embaçada pelos nossos pares nacionais. De nada adianta sermos o 7º PIB entre as cidades brasileiras, a 7ª capital mais populosa. Nossas diferenças e nossa opinião parecem contar muito pouco frente ao poderio do eixo Rio/ São Paulo que, no máximo, nos considera “exóticos”. Até o que nos é concedido pela União por direito e merecimento, acaba vendido como favor. A máxima “socialmente iguais e humanamente distintos” ainda soa como uma grande utopia.

As decisões da federação, em relação à nossa pequenez de voz, são tão confusas e avassaladoras que interferem até mesmo nas alianças políticas locais. E faz arqui-inimigos se tornaram maiores aliados. E as opiniões mudam em segundos. Quem ontem colocava o dedo no suspiro do desenvolvimento, em busca de poder político, vira melhor amigo! #Pensa


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