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A Fumaça Necessária

Crônicas de Domingo - 4 de Novembro de 2018 03/11/2018 às 00:00 - Atualizado em 03/11/2018 às 16:56
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A fumaça que tomou conta de Manaus em 29 de outubro passado.

Na última segunda-feira Manaus acordou coberta de fumaça, em absolutamente toda a sua extensão territorial. O odor que exalava era de resto de incêndio, de fios elétricos queimados. Assim amanheceu e permaneceu por um bom período do dia. Na véspera, os satélites registraram 142 focos de calor e de queimadas no Amazonas, apenas naquele domingo. Não foi a primeira vez em outubro, nem no ano, que nos deparávamos com aquela cena, que parecia persistir, em menor intensidade, havia semanas. Mas aos olhos de quem lacrimeja com a fumaça e sente a garganta arranhar, aquele foi, sem sombra de dúvida, o pior dia.

As lembranças do Facebook me trouxeram à memória uma foto que compartilhei havia exatos três anos, narrando uma situação idêntica e mostrando a cidade e a grande "defumação". As mesmas queixas e apelos registrados, que redundaram inúteis ao encontro de uma solução de 2015 para 2018. Como uma ferida que não recebe os devidos cuidados, a chaga só piorou e ficou mais exposta. Lembrei de quando, lá nos anos 1980, falávamos da cidade industrial de Cubatão, em São Paulo, do altíssimo índice de poluição do ar, das doenças decorrentes, uma realidade distante, mas que chegou em nós.
Sim, sempre fomos indiferentes aos apelos e alertas dos ambientalistas, até ao ponto de aplaudir quem os chamava de xiitas, mentirosos interessados em tomar a Amazônia. Fizemos coro muitas vezes com essa gente que tinha um discurso desenvolvimentista e que dizia que o caboclo precisava sobreviver. Fomos manipulados. O caboclo precisa sobreviver e sabe preservar o seu espaço. Mas quem explora e queima a floresta não é ele! Quem desmata e destrói tem CNPJ, crédito em banco, nome no mercado e normalmente goza de boa reputação na boca de quem desmerece os ambientalistas.
Em plena época de monitoramento por satélite, GPS e todo o arsenal tecnológico disponível, essas pessoas são facilmente identificáveis e encontráveis. Mas os anos se passam e a fumaça só aumenta. E agora, exatamente agora, estamos dados a atacar e a queimar nos interiores as equipes e os prédios do Ibama e do Icmbio; tratamos como burocracia vã o licenciamento ambiental. Achamos que a atividade de garimpo e de mineração foi demonizada demais e que o agronegócio é pop. Esquecemos de Balbina, de Serra Pelada, das recente Barcarena e Mariana.
Em algumas culturas, a fumaça é uma forma de limpeza e de expulsão dos maus espíritos. Talvez assim o seja também para nós. Precisamos passar por essa tragédia da fumaça, para abrir nossas mentes e enxergar o que acontece, que não começou ontem, vem apenas se agravando.Talvez essa fumaça seja necessária. Resta apenas saber se ela será suficiente para nos fazer acordar e perceber que estão queimando o Amazonas! #Pensa