Sábado, 22 de Fevereiro de 2020

A Notícia do Ano

Artigos de Domingo, 4 de Dezembro de 2016


03/12/2016 às 00:00

Dezembro chegou e estamos a 26 dias de um novo ano. E podemos declarar: so-bre-vi-ve-mos! Ufa!!! Desde que me entendo por gente, escrevendo ou não, tenho por mania escolher a notícia, o fato mais importante do ano. Lembro de algumas dos anos 1980 e 1990: a queda do Muro de Berlim (1989), o fim da União Soviética (1991), o impeachment de Collor (1992), o nascimento do primeiro clone, a ovelha Dolly (1996). Aqueles eram anos em que o mundo parecia se transformar numa velocidade galopante. Nunca mais seríamos os mesmos! E não fomos.

Mas as mudanças continuaram avançando sobre o planeta, com notícias surpreendentes, mostrando a dinâmica dos fatos históricos. E continuei a eleger a notícia do ano, apenas para a minha análise sobre como estava minha visão de mundo. Entretanto, percebi que os acontecimentos começaram a ganhar uma dimensão mais intimista. Em 2015, por exemplo, a morte de meu pai foi para mim o fato mais marcante de todos. Talvez a Terra não tenha mudado, mas o meu mundo particular se transformou.

Sobrevivente de 2016 sem grandes arranhões, em termos pessoais, a notícia do ano volta a ser coletiva! E comecei a imaginar: o que terá sido? Elementos não faltam. Ano de impeachment da Dilma, véspera das eleições presidenciais de 2018, em que duas bestas apocalípticas prometem polarizar o pleito: de um lado o ódio e do outro a mentira, ambos personificados em forma de candidatos. Crise econômica pesada e mais de 11 milhões de desempregados no País. Avanço da direita em disputadas importantes, como foi o caso de Trump, o que deverá transformar por completo as relações internacionais.

Ora ora, 2016 foi um ano de inúmeros acontecimentos inesperados, importantes, transformadores. Basta ver as prisões realizadas pela Operação Lava-Jato e as condenações sentenciadas. E os acordos de delação premiada que prometem balançar os cenários políticos de 2017, sem deixar pedra-sobre-pedra. Tudo, tudo mesmo é muito importante. Fica até difícil hierarquizar uma ordem de importância nesse turbilhão de notícias.

Mas 2016 também foi o ano em que completei 50 anos. E é inevitável perceber que eu mudei, o tempo me mudou. E que existe um critério que pauta a escolha daquilo que foi mais importante no ano: a emoção, o fato que me toca e me faz pensar. Algo que desperta o desejo de mudança, de transformação... E nesse sentido nada foi tão forte, ou me sensibilizou tanto quanto uma outra morte. A morte do pequeno André Pereira Crescenço, de seis anos, ocorrida no domingo, 25 de Abril de 2016.

Andrezinho brincava na rua, num dia de chuva, caiu num bueiro e seu corpo foi encontrado dias depois. Era filho adotivo, de pais separados, e sua morte revelou uma saga de luta de uma vida severina. Aos seis anos, nunca tinha ido à escola. Não tinha certidão de nascimento. Não conhecia a mãe. Foi ter seu documento de registro e seu encontro com quem lhe deu à vida, ironicamente, depois da morte. Seu corpo ficou guardado por mais de um mês numa gaveta da geladeira do IML, até que toda a burocracia se revolvesse. Fizeram por André, post mortem, o que não realizaram em vida.

Aquele menino se foi e deixou uma mensagem a todos nós! Emocionei-me inúmeras vezes ao ler as matérias sobre o assunto e me questionei: que mundo estamos construindo? Andrezinho nos faz pensar que é necessário construir uma Manaus melhor, mais humana, onde toda criança tenha direito a brincar num banho de chuva! Estamos construindo? #Pensa


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