Terça-feira, 13 de Abril de 2021

A Santa Inquisição?

Por que que eu não teria amigos que discordam do que penso? O que não aceito é amigo que não me permite ter opinião, que faz terrorismo psicológico...


27/03/2021 às 09:20

Nem todos os meus amigos pensam como eu. Nem todos têm a mesma crença religiosa que eu. Alguns até acreditam em coisas opostas àquelas que eu considero verdades. Mas convivemos. Há momentos em que evito abordar certos credos, para evitar embates de ideias que talvez não levassem a lugar algum. Eventualmente, conversamos sobre aquilo em que conflitamos, eu os ouço e eles me ouvem, mas sem a ambição de converter ninguém. Essa é uma experiência muito pessoal.

Reconheço a ancestralidade deles, a formação deles, o ambiente e as experiências que enfrentaram para o encontro dos seus “sagrados”. É uma política de convivência, uma forma de exercer a empatia, de me colocar no lugar do outro. Conseguimos ter momentos muito prazerosos juntos, sermos solidários uns com os outros, dividir pequenas horinhas de felicidade, mesmo discordando em questões tão fundamentais quanto a crença religiosa.
O que me incomoda, aborrece e faz me afastar deles é a pretensão de quererem impor suas verdades sobre as minhas, de serem intolerantes às minhas crenças ou práticas religiosas; é aquela militância diuturna de quererem que eu acredite no que eles acreditam. Ou, eventualmente, de serem hipócritas e incoerentes, pregando uma coisa em voz alta aos quatro cantos, mas fazerem exatamente o oposto em particular. Aí não dá, porque essa gente é perigosa.

Sim, tenho amigos que divergem de mim. Amigos conservadores – o que eu não me considero, que torcem por times rivais aos meus. Nutro afetos por pessoas com opiniões divergentes das minhas sobre aborto, pena de morte, eutanásia, drogas ilícitas, e uma infinidade de outras coisas; que fazem coisas com as quais eu não concordo. O mundo é diverso e enorme, por que eu me negaria a viver nele?

E por que que eu não teria amigos que discordam dos meus pontos de vista políticos? Tenho e não são poucos. Vez por outra tentamos um diálogo mútuo. Há momentos em que nos calamos ou até nos desentendemos. Mas permanecemos amigos, porque há uma série de outros elementos que corroboram para a afeição. O que eu não aceito é amigo que não me permite ter a minha opinião, que tenta me convencer à força, que faz terrorismo psicológico, que prega o ódio e a intolerância, conscientemente. Aí não dá, gente assim não pode ser minha amiga.

Quem me deu o direito de ficar julgando ou rotulando em definitivo os outros? Eu já errei, já tive opiniões e visões contrárias às que eu tenho hoje. Mas o tempo, a experiência e o conhecimento me trouxeram até aqui e exerceram sua magia sobre mim e sobre a minha vida. Não quero um mundo de pessoas iguais a mim. O que é isso, a Santa Inquisição?* Mesmo entre aqueles da mesma religião, que gostam das mesmas comidas e curtem os mesmos filmes e séries há pontos de vista diferentes.

O que eu NÃO POSSO fazer é me fechar ao outro, à dúvida, às novas experiências e aos novos conhecimentos. Também não posso me fechar à empatia, à solidariedade, à compaixão, ao entendimento do outro. No dia em que eu fizer isso, aí eu estarei morto, morto em vida, e vou querer um mundo em que todos pensem exatamente como eu, e vociferarei aos quatro cantos para impor minha opinião. Mentirei conscientemente para fazer valer meus argumentos e minhas verdades, mesmo as sabendo falsas. Se a gente pensar bem, há tanta gente morta vivendo no mundo. Mas eu não me dou o direito de morrer assim. Não é justo! #Pensa

 

 

* Na imagem: Galileu diante dos membros do Santo Ofício, por Robert-Fleury Joseph-Nicolas (1797-1890) 


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