Quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2020

A Sociedade Digital e a Falta de Conexão

Crônicas de Domingo - 25 de Fevereiro de 2018


24/02/2018 às 00:00

Nenhum outro assunto durante a semana foi tão relevante ao debate da sociedade quanto a intervenção federal na segurança do Rio de Janeiro. Depois dos inúmeros episódios violentos retratados antes e durante o carnaval carioca, os cidadãos de todo o Brasil acabaram se dividindo entre “contras” ou “a favor” à medida, com as justificativas as mais surpreendentes. Tive a impressão que ouvimos, em grande parte, opiniões de especialistas de coisa alguma, querendo parecer cultos e engajados, sabe-se lá no que.

Não estou discordando do debate, em absoluto. Ele é necessário, indispensável. Mas precisa ganhar conformações de diálogo e de realidade, levando em consideração a situação de quase “guerra civil” a que é submetida a população da cidade e do estado do Rio de Janeiro. Infelizmente não é o que está acontecendo. Prova disso foi a viralização de uma foto que rendeu milhares de curtidas e compartilhamentos nas redes sociais, e que mostrava crianças tendo suas mochilas revistadas por militares, causando indignação de grande parte dos cidadãos. Mas a foto, de autoria de Márcia Foletto, data de novembro de 1994 e foi publicada na capa do jornal “O Globo” daquele mês e ano. A quem interessa fazê-la parecer atual?

O fato não deixa de ser um reflexo da sociedade digital, em tempo real, midiática, atenta às mais diversas questões, pautada entretanto pela superficialidade e pela falta de conteúdo. Elegemos temas de grande repercussão, tenham eles importância, ou não, fazendo “network” com  debates nacionais e internacionais, mas deixando de lado a realidade das nossas aldeias, do nosso mundo local.

Serve como exemplo a queda do monomotor na última quinta-feira, nas proximidades da Torquato Tapajós. Todo mundo se limitou a, eventualmente, falar do acidente e publicar fotos escatológicas das vítimas da tragédia. Mas quase ninguém se aprofundou na questão da localização do aeroclube de Manaus, situado numa região altamente habitacional. Foram 16 acidentes em 10 anos, uma média que me parece bastante alta. Mas quantos “likes”, compartilhamentos merece o assunto? Corremos o risco de um avião cair sobre nossas cabeças, embora estejamos mais sintonizados com a violência dos morros cariocas. Advento da aldeia global virtual.

Talvez a crise migratória venezuelana também devesse nos preocupar. Estamos aqui ao lado. Ou quem sabe ainda o domínio que os narcotraficantes exercem sobre nossas fronteiras e sobre determinados trechos de rio, como aquele entre Codajás e Tefé, infestado por piratas e sem esperanças de, a curto prazo, ter uma solução. Mas a nossa violência “de casa” não nos basta, talvez ela não seja assim tão glamourosa. Acabamos nos ocupando de outras violências e compartilhando falsas notícias, sabe-se lá pra quem tirar vantagem disso! #Pensa


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