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A Solidão da Matilha

Crônicas de Domingo - 30 de Setembro de 2018 30/09/2018 às 00:00 - Atualizado em 30/09/2018 às 10:12
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Lembranças da minha infância da horta da Dona Rosa e do Seu Ilídio: o chão dos jambeiros em flor! Foto:Blog Olhar Acriano

Fui criado num lar de mãe católica e pai evangélico. Minha avó frequentou a gnose. Exatamente por isso, cresci com liberdade para escolher minha religião, sempre explicando os porquês. E sabendo que a minha escolha não seria necessariamente a do outro. Meus pais eram pessoas simples, de origem humilde, mas muito inteligentes. Discutiam política conosco. Meu pai, policial militar, era um bom homem (nos deixou há 3 anos), extremamente democrático e justo - até mesmo nas tarefas domésticas. Todos tínhamos nossas obrigações, inclusive ele. Na nossa casa os empregados, quando eles existiam, comiam à mesa, conosco, da mesma comida. E sempre eram tratados de senhor e senhora. Com o tempo isso se transformava em tio, tia, dinda. Não tenho episódios de violência doméstica. E o que mais pesava sempre eram os argumentos de meu pai – consistentes demais. Costumo brincar que meus pais eram o Eduardo e a Mônica da canção.

Adolesci aprendendo a necessidade do diálogo, dos porquês, dos argumentos. Eu precisava ser convincente e confiável para conseguir as coisas. Cresci, aprendi a beber, deixei o cabelo crescer e decidi trabalhar… fui parar por um tempo na Universidade de Haifa, em Israel, numa das mais belas lições de diversidade que pude ter em minha vida. Depois frequentei a Universidade de Rikkyo, em Tóquio, numa cultura completamente diferente. Tive a oportunidade de viajar muito, de conhecer o diferente, o inusitado e aprendi que se você quer viajar para um lugar como a sua casa, talvez não deva viajar. Sua casa é única. Todo o resto é diferente. E eu adoro viajar.

Voltando à infância, tive o prazer de viver numa casa que aos fundos tinha uma enorme horta – da Dona Rosa e do Seu Ilídio. Em pleno centro da cidade, a diversidade de ambientes urbanos. Sinto saudades. Meu primeiro amigo era o filho do pipoqueiro que ficava em frente à casa da minha vó: o Moisés. Na Manaus que eu moro, por escolha própria, a sinagoga, a mesquita, uma igreja batista e uma das principais igrejas católicas distam um quarteirão, uma da outra.

Aprendo todos os dias a importância de saber do outro, como ele é, de respeitar as diferenças e opiniões. Não há melhores nem piores, eles apenas são diferentes. Tenho ficado extremamente preocupado com a nossa “intolerância” aos termos e opiniões do outro, que por acaso é o “próximo”, daquele livro lá que todo mundo usa quando é conveniente. Há um trecho que eu adoro, talvez não por acaso: “quem é o teu próximo?”, da parábola do bom samaritano. A vida me foi tão generosa que me deu até a oportunidade de estudar para compreender quem eram os fariseus, os levitas e os samaritanos.

Fico triste em ver a nossa incapacidade para viver fora das nossas matilhas pessoais, dos nossos currais de convicção. Estamos fadados à solidão, enquanto cidadãos. #Pensa