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Crônicas de Domingo - 17 de Fevereiro de 2019 17/02/2019 às 00:00 - Atualizado em 17/02/2019 às 08:03
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Essa semana fiquei refletindo o quanto nós somos enganados e compramos gato por lebre. Ficamos repetindo informações de impacto que ouvimos em algum lugar, na boca de não sei quem, sem nos perguntar se aquilo realmente é uma verdade, ou de quem é aquela verdade. Porque quase toda informação veiculada está a serviço de alguém com algum propósito. E em tempos de mundo virtual, precisamos desconfiar mais ainda e apurar aquilo que queremos compartilhar ou dar ressonância.

Quantas vezes você já ouviu dizer, por exemplo, que o peixe vendido nas feiras de Manaus vem de outros estados? ?ue não somos autossuficientes em pescado, que precisamos incentivar blá blá blá blá blá blá? Pois é, parece sério e preocupante! Uma informação objetiva que fica martelando em nossa cabeça: “como é que um estado como o Amazonas não é capaz de prover o peixe consumido pela população?”. Essa deve ser provavelmente uma das informações que você comprou e que, vira e mexe, rememora e a reproduz.

Durante a semana tive a oportunidade de investigar um pouco mais o assunto. Descobri que o que tem acontecido, na verdade, é que a pesca ilegal e predatória, promovida em várias regiões do Amazonas, faz chegar às centrais de abastecimento de Manaus, para consumo local, ou para venda a outros estados, espécimes pescados no Amazonas, mas embalados, salgados ou congelados, como vindos de alguma comunidade de Roraima, de Rondônia, etc. Burla-se assim os dispositivos de preservação, o período do defeso e as proibições legais.

Mas como está na moda falar mal de ambientalista e achar que as áreas de proteção ambiental em território nacional são excessivas, contraproducentes, etc & tal, talvez você esteja se questionando: sim, e daí, qual a relevância dessa informação num estado com tanto peixe e tanta água? Pois é, já profetiza o ditado popular: dia de muito, véspera de pouco. E essa regra é perfeitamente aplicável à questão da pesca nos rios da Amazônia.

Mas se ainda assim você não vê sentido com a preocupação, vamos analisar o caso do tucunaré. Há um decreto estadual em vigor que proíbe a saída de pescado da região de Barcelos e Santa Izabel do Rio Negro – só se pode vender localmente, naqueles municípios. Barcelos também proibiu a venda do tucunaré açu, o que cresce mais, sendo liberados apenas os tucunarés popoca e borboleta. Entretanto, há dezenas de pescadores comerciais que estão colhendo essas espécies por zagaia, por rede, por bateção, arrastando tudo o que há nos lagos, dentro ou fora da época do defeso. E depois vendem em Manaus, como peixe vindo de outros estados.

Resultado disso: o ribeirinho não ganha quase nada, os lagos são devastados, as matrizes são mortas e, em se esgotando, serão necessários 20 anos para serem repostas. O tucunaré açu é a grande estrela da pesca desportiva, que pratica o “catch and release”, ou seja, pega, pesa, mede, tira foto e devolve vivo aos lagos. Uma atividade que transformou o Alto Rio Negro num destino privilegiado para esse tipo de turismo mas que, por absoluta falta de rigor na fiscalização em relação à pesca comercial e ilegal, poderá se esgotar em quatro anos. Mas a gente fica comprando gato por lebre, achando que consumimos peixe de outros estados, quando estamos mesmo é nos engolindo! #Pensa