Quarta-feira, 26 de Fevereiro de 2020

Ama???

Artigos de Domingo - 8 de Maio de 2016


09/05/2016 às 11:09

Um bate papo durante a semana com um colega de trabalho me remeteu inesperadamente ao tempo quando fui morar em São Paulo. Eu já conhecia a cidade, de estadias de três, quatro dias, e guardava a impressão que a capital paulistana era bem definida pela canção do Caetano: “São Paulo é como o mundo todo”. Uma metrópole de grandes eventos, mega shoppings, vida noturna e gastronomia variadas. E, de turista, passaria a encarar aquela realidade pela ótica do morador.

Uma coisa que me chamou atenção logo que lá cheguei foi a atitude dos meus amigos e conhecidos, e das pessoas que eu começava a fazer contato. Todos eram unânimes em dizer: “Vou levar você para conhecer um pouco de São Paulo”. E eu respondia que já conhecia, de outras muitas viagens, ao que eles reagiam: “Não, você não conhece, você apenas acha que conhece”. E aquilo me deixava, logo no princípio, surpreso e curioso. Afinal, o que haveria a mais para se conhecer em uma grande cidade?

E foi assim, por exemplo, que minha amiga Wanessa, hoje doutora em História, me levou para assistir a uma missa em canto gregoriano, num domingo pela manhã, no Mosteiro de São Bento. Uma experiência indescritível. Meu amigo Kanni, à época estudante de Turismo, e hoje professor, me levou para ver o centro de cima, do topo do Edifício Martinelli, o primeiro arranha-céu do Brasil e da América Latina. E me narrou que a desconfiança das pessoas era tanta que Martinelli, o empreendedor daquela “loucura”, construiu sua residência na cobertura da edificação, para provar que era segura e não cairia.

Alguém me levou a conhecer, acho que o Roberto, o Betinho da CVC, o “Ouro para o bem de São Paulo” – um edifício no centro da cidade, construído com o que sobrou do ouro doado pelas mulheres paulistanas para financiar a Revolução de 1932. A fachada é a bandeira paulista. A algumas quadras dali, na rua das ferramentas, cheia de lojas do ramo, está a única casa grande e senzala urbana da capital paulista, talvez a única do país. Na época não estava restaurada, ou sequer adaptada à visitação turística. Mesmo assim era fascinante, testemunha da história brasileira.

Fui ao samba, perto de casa, na Vai-Vai, em plena Sampa, segundo Caetano, o “túmulo do samba, mas possível novo quilombo de Zumbi”. E o samba era da melhor qualidade. Frequentei o Bar Brahma, na Ipiranga com a São João, e o Piu Piu, no Bexiga, para ouvir os moradores tocarem chorinho. E conclui, logo nos primeiros meses, que eu nada conhecia daquela cidade, ao ponto de ignorar atrativos tão fundamentais.

E quanto mais eu conhecia, mais eu me encantava. E a relação dos moradores com a selva de pedra era genial. Aqueles não eram anos de “um sonho feliz de cidade” para São Paulo, que vivia as agruras urbanas das prefeituras de Erundina e Maluf. Ainda assim, o paulistano, nativo ou adotado, mesmo que de contrabando, sempre tinha uma história boa pra contar, apesar da poluição, apesar do trânsito, apesar dos pesares. E como a gente sai da Barelândia, mas a Barelândia não sai da gente, eu me punha a imaginar o que nós, os barezinhos, teríamos a apresentar. Que histórias haveríamos de contar e que personagens a revelar.

Voltei a morar em Manaus em 1995, há 21 anos. Percorro a cidade por todos os cantos, dia-a-dia me encanto. Sempre que posso ando a pé e faço novas descobertas. Mas vejo que nosso repertório de orgulhos, de amores, de seduções é pequeno, meio amarelado. A cidade parece não ser vista por nós como ela merece. E apesar do calor humano, apesar do peixe frito, apesar do banho de igarapé, do balanço na rede e de tantas outras coisas “tão puras, tão minhas”, somos um bando de gente que jura que ama, mas que boa parte do tempo só reclama e maldiz. Que diacho de amor é esse?


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