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América

Artigos de Domingo, 6 de Novembro de 2016


06/11/2016 às 00:00

Minha primeira vez nos Estados Unidos, há mais de 25 anos, aconteceu como uma parada técnica durante uma viagem intercontinental. Eu voltava da Ásia e decidi parar por alguns dias, antes de retornar ao Brasil. Meio sem planejamento, aterrissei em Los Angeles e acabei ficando em um “inn”, fora do roteiro turístico, mas próximo de tudo que interessava. Como sempre faço nas cidades que visito, saí para caminhar e conhecer o entorno. Conferi antes na recepção do hotel se era seguro e tal. Para minha surpresa, de marinheiro de primeira viagem, quase todo mundo falava fluentemente espanhol!

Eu, que não me arriscava no portuñol, tomei um susto. Estava nos Estados Unidos e as pessoas usavam correntemente, nas lanchonetes, bares e lojas, o espanhol para se comunicar. Não era a mim que elas se dirigiam em espanhol – era entre elas mesmas. Decidi então pegar uma excursão guiada para conhecer a cidade: Santa Mônica, Malibu, Hollywood, Bel Air, Bervely Hills, Rodeo Drive. Aí o idioma já me era mais familiar, com o inglês correntemente falado, mas raros eram os lugares em que ele era exclusivo. Aquela foi uma imagem forte que guardei da minha primeira vez em solo norte-americano.

Os anos se passaram e a vida me possibilitou voltar à Califórnia, algumas vezes, e conhecer outras cidades: Nova Iorque, Miami, Washington, Chicago, Portland, Nova Orleans, São Francisco... Aprendi que os EUA são um país multicultural, repleto de migrantes, e de gerações inteiras formadas por eles, que já fazem parte marcadamente da cultura da nação. Existe uma expressão que eles adotam e que serve de tradução para esse fenômeno: “melting pot”, ou caldeirão de raças.

Mas a presença de Donald Trump na corrida presidencial aos Estados Unidos colocou em questionamento essa diversidade étnica, e chegou mesmo a segregar algumas raças. Observo muitos brasileiros fazendo exaltações apaixonadas a Trump e se manifestando em favor de sua eleição. E me pergunto: será que essas pessoas conhecem aquele país? E se algum dia estiveram lá, foram muito além dos outlets promocionais? Ou se, ao conheceram a Estátua da Liberdade, passaram pela Ellis Island?

Andamos numa propagação tão grande de ódio no Brasil, que qualquer pessoa ou instituição que fale contra seja-lá-o-que-for parece merecer imediatamente atenção. E assim seguimos, dando espaço aos “haters”, sem pensar, sem nos aprofundar. Queremos falar contra, desejamos o conflito, somos contra e não abrimos mão, sob pena de porrada.

E no meio dessa confusão opiniosa, de profundidades rasas em que nos envolvemos, me vem à lembrança o recente episódio internacional com o Brasil, quando Venezuela, Cuba, Bolívia e Equador questionaram a decisão do impeachment tomada pelo Senado e colocaram em cheque a legitimidade de nossa democracia. Baseado em que eles diziam aquilo? Eles estavam vivendo nossa realidade? Ou estavam sendo opiniosos, por interesses próprios, a exemplo dos financiamentos recebidos da parte dos governos Lula e Dilma? Grande parte de nós, o povo brasileiro, se ofendeu e se incomodou com a atitude tomada por aqueles países. Que isso sirva de balizador ao expressarmos nossas opiniões sobre outras nações! Cuidado “haters”, o ódio é uma força sem controle e tem efeito bumerangue! #Pensa


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