Quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2020

Autossabotagem

Artigos de Domingo - 22 de Janeiro de 2017


21/01/2017 às 00:00

O Sandro Viana é o dos atletas mais importantes da atualidade no Amazonas. Medalhista de ouro nos jogos panamericanos do Rio e de Guadalajara, disputou três mundiais de atletismo. Sua carreira começou somente quando ele tinha 24 anos, idade considerada avançada para o esporte, o que não o impediu de conseguir seus objetivos e figurar entre os velocistas mais importantes do País. Aos 40 anos, Sandro se vê novamente frente a frente com os desafios impostos pela idade. Uma de suas vantagens é a boa capacidade de se expressar, de expor suas idéias.

Durante a semana, Sandro, a quem eu já estimava e admirava, ganhou ainda mais meu respeito, ao publicar nas redes sociais:

“Só observo pessoas que se dizem defensores de Manaus, criticando sistematicamente a arquitetura, a falta de segurança, o jeito de falar (sotaque) das ruas, a falta de verde, apontando a maneira correta de conduzir e existir da metrópole e até da cultura. Senhores, de 12 perfis, 10 têm suas fotos exibindo mares, "streets" famosas e bonecos de neve. Parem de fingir que amam Manaus. Vocês nem sabem onde ela fica e só estão nela por que não têm outro lugar #CidadãoRepresenta.”

Inevitável trazer à lembrança um sem-número de “novos ricos” e de “pessoas públicas” que vivem declarando amor à cidade, mas que na primeira oportunidade fogem dela, maldizendo suas condições. Amaldiçoam o calor, a cidade, o comércio, o atendimento. Adoram ostentar que fizeram tal coisa ou que compraram isso ou aquilo em Miami, ou em qualquer outro lugar, mesmo que aquele serviço ou aquela mercadoria também esteja disponível aqui. Parecem ter o prazer de dizer “não, não foi em Manaus”, como uma vitória, um símbolo de sucesso e de status. Mas admitem que a cidade é “boa para se ganhar dinheiro”!

Não sei em que momento da formação de nossa sociedade nos foi impresso esse desamor pelas coisas daqui, pela cidade, que permeia todas as classes sociais e níveis educacionais. Não são só os abastados que gostam de esnobar Manaus. Os limitados “assalariados” também o fariam, se pudessem. Parece uma necessidade de auto-afirmação às avessas.  E isso é tão forte que acaba se espelhando nas mais diferentes situações. Basta ver a nossa procura por soluções urbanas. Num ambiente tão diferente e numa configuração tão específica de cidade, ficamos atrás de importar velhas soluções de Curitiba, de São Paulo e até de outras cidades do exterior, nenhuma delas semelhante a Manaus.

Somos incapazes de investir em educação, em pesquisa, em ciência e tecnologia. Incompetentes para encontrarmos soluções locais! O que temos criado nos últimos anos a partir de nossa realidade? Tudo isso é fruto do desamor, do descompromisso com a identidade manauara e amazonense. Durante a semana, fiquei sabendo da presença de uma participante daqui no reality show BBB. Incrível perceber que as pessoas automaticamente já começaram a menosprezar a “sister caboquinha”, mesmo antes do programa começar. De onde vem essa baixa estima, essa autossabotagem? Porque nos odiamos tanto? É Sandro, você tem razão. Talvez nem saibamos onde fica Manaus! #Pensa


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