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Bernardo

Crônicas de Domingo - 18 de Novembro de 2018 17/11/2018 às 00:00 - Atualizado em 17/11/2018 às 15:08
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Família reunida no carro, rumo ao almoço de feriado. Literalmente de oito a 80: Bernardo, que completa nove em abril do próximo ano e duas octogenárias, minha mãe e minha tia!  Paramos em um sinal repleto de crianças - na Salvador com a Maceió. Algumas delas faziam malabarismo, outras simplesmente pediam. Um estrangeiro passava entre os carros com um cartaz: “preciso de emprego”!

Todos nós cinco - meu irmão estava na direção - nos entreolhamos. Não dá pra simplesmente se acostumar ou ignorar aquelas cenas. Comento o quão trágico é o fato e reproduzo um conceito que aprendi faz tempo: “mas não se pode dar nada às crianças, pois sempre há um adulto por trás, as explorando”! Minha tia aponta um homem sentado à sombra, na calçada! Bernardo retruca: “mas eles também precisam comer”! Pergunto quem!? E ele me responde de pronto: “as crianças e os adultos”!

Aquilo foi Inesperado. Fiquei sem argumentos! Bernardo tem esse dom de me desarmar e me fazer olhar a vida com outros olhos. Quando ele se formou no A-B-C, elogiei a forma como ele se comportou na formatura e citei um amiguinho dele que não havia se conduzido tão bem! Ele me explicou que o menino havia perdido o pai. Perguntei quando. Ele respondeu que achava que em 2015. Eu, o “dono” das explicações, me adiantei em dizer : “mas depois de tanto tempo?”. Ele, que nunca é muito de se calar, se saiu com essa: “Tio, o seu pai, o vovô, morreu há quantos anos? O senhor ainda não sofre por ele?”.

Numa semana em que os médicos e as condições da saúde pública por aqui e em todo o Brasil acabaram sendo o assunto, o grande tema que está escondido por trás dos fatos é, em verdade, o direito à vida. O mesmo direito que talvez aqueles meninos do sinal e o estrangeiro se vejam impedidos de usufruir em platitude.

Reproduzir os fatos, seguidos de conceitos antigos, não tem conduzido a soluções eficazes. Nem para os gastos públicos inadequados, nem para políticas sociais mais efetivas à saúde pública, nem para a atenção à infância e à juventude. Esses são tempos difíceis, em que precisamos lançar novos olhares sobre velhas questões!

Infelizmente seguimos aceitando situações inexplicáveis, culpando a pobreza “parideira irresponsável” e dizendo que os estrangeiros são problema dos dirigentes estrangeiros. Esquecemos até que nossas famílias, em um número expressivo, já foram estrangeiras  ou retirantes nessa mesma terra, que tem nos indígenas os verdadeiros ocupantes! Um dia fugimos, em nossa ancestralidade, da pobreza, da fome, da perseguição política ou religiosa! Um dia sonhamos com novos horizontes em terras estranhas.

Talvez o Bernardo possa me responder muita coisa, pela observação mais simples e direta da vida. Da próxima vez que cruzar com crianças pedindo, vou lembrar sim “que elas precisam comer”, independentemente dos conceitos de exploração. Sim, há ali uma questão imediata que demanda de uma atitude emergencial! Obrigado Bernardo! #Pensa