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Bocas e mãos sujas de “justiça”!

Crônicas de Domingo - 26 de Agosto de 2018 26/08/2018 às 00:00 - Atualizado em 26/08/2018 às 08:52
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Conflito na delegacia de Caapiranga, com um morto e onze feridos. Delegado levou um tiro de raspão e promotor uma pedrada. Delegacia foi destruída. Início de rebelião da delegacia interativa de Uarini, que também funciona como cadeia. O tumulto foi provocado por uma revista policial, que encontrou nas celas drogas e aparelhos de telefone celular. A tensão no interior marcou a semana que passou. E o mais inusitado é que, nem Caapiranga, nem Uarini, parecem fazer parte do grupo de municípios que naturalmente seria alvo de problemas com a segurança pública.
Caapiranga tem pouco menos de 11 mil habitantes, enquanto Uarini tem pouco menos de 12 mil. A primeira, próxima a Manacapuru, fica na calha do Médio Amazonas, enquanto a segunda, nas redondezas de Tefé, está na calha do Médio Solimões. Não conheço Caapiranga, mas conheço Uarini, abrangida pela Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. Estive lá há uma década, a trabalho, numa viagem sensacional, dias e dias navegando pela Amazônia. A lembrança que tenho é de uma cidadezinha com duas ruas, a da frente e a de trás, um lugar quase paradisíaco. Entretanto…
Fico me perguntando o porquê de municípios tão pequenos, e aparentemente isentos de problemas de segurança, protagonizam situações como essas. Em julho deste ano, Borba, já com quase 35 mil habitantes, mas também fora do eixo da violência urbana, foi palco de uma tragédia em que a população destruiu o quartel da Polícia Militar, resgatou um preso acusado de estuprar e matar uma jovem de 14 anos com quem namorava, o linchou e depois o queimou vivo em praça pública. Em outubro do ano passado, em Humaitá, no sul do Amazonas, garimpeiros queimaram prédios e veículos do Ibama e do ICMBio, após uma operação de apreensão de balsas de garimpo ilegal.
Talvez precisemos repensar com urgência nossos conceitos a respeito do interior do Estado. Talvez não correspondam a nada daquilo que historicamente pensamos. Talvez não estejam recebendo a devida atenção. Talvez a população esteja impregnada por novos conceitos que a leva a atitudes tão extremadas e difíceis de justificar, como a barbárie de Borba e o levante de Humaitá. O fato é que as investigações policiais apontam que, nestas duas cidades, havia autoridades do poder público, entre elas vereadores, que instigavam o povo a agir daquela maneira. Vai entender…
De qualquer maneira, a atitude de “fazer justiça com as próprias mãos” - um clichê em que “justiça” parece um termo absolutamente impróprio - em momento algum pode ser um comportamento aprovável ou que mereça estímulo de quem é eleito para cuidar do bom andamento da coisa pública. Quantos outros episódios precisam ser lembrados, em que inocentes foram mortos injustamente nessas demonstrações públicas de linchamento? Centenas. Recentemente, em Manaus, um estudante inocente foi morto a pauladas, confundido com um de seus próprios assaltantes. Como fazer justiça numa situação dessas? Prender os linchadores, condená-los… mas a vida daquele menino de 16 anos não volta. Justiça, pero no mucho, dano sem reparação. #Pensa