Terça-feira, 02 de Junho de 2020

Como pode um peixe vivo...

O tucunaré-açu vivo vale infinitas vezes mais que o morto. Entretanto ele é ameaçado pela pesca ilegal e até pelo garimpo, que polui os recursos hídricos, matando a fauna ictiológica.


21/09/2019 às 15:20

Passei a semana refletindo sobre a questão ambiental em que nos vemos envolvidos nos últimos tempos. Para muito além dessa superexposição que sofremos recentemente, por conta do aumento do número de focos de incêndio, a natureza amazônica e seus ecossistemas vêm sendo alvo de muitos ataques e ameaças. Longe do destaque da mídia, caminha em várias esferas de poder a liberação do garimpo na região. Garimpo que, na prática, já ocupa grandes extensões de terra; no Amazonas, é encontrado desde o Alto Rio Negro, em São Gabriel, até o Baixo Amazonas, em Maués.

A facilitação ou a liberação da atividade de garimpo conta inclusive com apoio parlamentar. Mas eu me pergunto: em que momento o garimpo pode ser benéfico ao cidadão ou à coletividade? Contaminação dos rios com mercúrio, contrabando, aumento dos índices de violência, e um forte impacto social onde se estabelece são consequências de uma história que já sabemos de cór. Uma situação onde ninguém ganha, a não ser o garimpeiro, caso permaneça vivo. Mas há os defensores do garimpo... talvez eles também tenham alguma coisa a ganhar.

Enquanto a gente, por aqui, abre a porta à poluição dos rios pelo mercúrio, na contramão de tudo isso vários estados brasileiros adotam a cota zero para algumas modalidades de pesca, entre eles Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Roraima e Tocantins. E eles fazem isso exatamente por saber que o peixe vivo tem um valor muito maior que o morto. Não fosse assim, tantos estados não tornariam o dispositivo em lei aliás, medida que também é adotada em outros países.

Serve de exemplo, aqui no Amazonas, o tucunaré-açu, que atrai milhares de pescadores esportivos para a prática do “catch and release”, ou “pesque e solte”, modalidade que preserva os grandes peixes e faz turistas pagarem até US$ 10 mil por um pacote turístico que proporcione a experiência. Esse mesmo tucunaré, morto, na banca do mercado, custa quase nada e é pouco ambicionado pelo amazonense como iguaria gastronômica, ou enquanto fonte de proteína animal.

Mas matar os grandes tucunarés faz com que os pescadores esportivos não venham mais. Há estudos desenvolvidos que mostram uma receita de R$ 67 milhões com a pesca esportiva na região do Médio e Alto Rio Negro. Considerando que lá está concentrada 50% de toda a atividade no Estado, o Amazonas deve obter de receita, anualmente, R$ 134 milhões, ou mais, com a prática dessa modalidade turística. Nesse caso, o peixe vivo vale infinitas vezes mais que o morto. Entretanto ele é ameaçado pela pesca ilegal e até pelo garimpo, que polui os recursos hídricos, matando a fauna ictiológica. Mas há quem defenda a liberação da atividade garimpeira. E sem explicar muito o porquê.

Em tempos em que precisamos nos reinventar, por todo o cenário que está colocado, inclusive pelas ameaças ao modelo ZFM, é obrigatório descobrirmos o valor da floresta em pé e da natureza viva, sob pena de nós mesmos e nossas dignidades virmos a morrer. #Pensa


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