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Con-tradição

Artigos de Domingo, 19 de Fevereiro de 2017 19/02/2017 às 00:00 - Atualizado em 19/02/2017 às 00:58
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Abro as redes sociais e descubro que era Dia dos Namorados! Eita, mas ainda é Fevereiro, e dia dos namorados é dia 12 de Junho, véspera de Santo Antônio, o santo casamenteiro. Mas rapidamente percebo que é dia de São Valentim, 14 de Fevereiro e, pelas tradições norte-americanas e européias, é o “Valentine´s Day”, que estamos todos celebrando. Reclamo e um amigo me diz: isso é multiculturalismo. Mas eu retruco: nada disso, multiculturalismo é a convivência de diferentes culturas num mesmo espaço geográfico, em um mesmo intervalo de tempo.

O Brasil reúne ancestralidades culturais de brancos europeus, em sua maioria, portugueses, de negros africanos e de indígenas. É um país multicultural. Agora, importar uma tradição com a qual não temos nenhum laço afetivo é outra coisa. Aliás, pode-se definir tradição como “comunicação oral de fatos, lendas, ritos, usos, costumes etc. de geração para geração”. Tradição tem a ver com o “ato ou efeito de transmitir ou entregar, transferir”. Portanto, o “Valentine´s Day” não tem nada a ver conosco. É a importação de cultura.

Nos últimos anos, notadamente nos últimos três, andamos celebrando “Black Friday”, “Dia de Ação de Graças”, “Halloween”! E somos audiência garantida ao Super Bowl, que faz enorme sucesso e é assunto nas redes. Não tem algo de errado nisso não? Estamos, aos poucos, sorrateiramente, construindo um novo calendário de datas comemorativas baseado na cultura norte-americana. Passamos a festejar a tradição dos outros, mesmo que não tenhamos qualquer laço de afetividade com aquela situação. Já não queremos ser nós mesmos.

Há quem diga que se trata do fenômeno da globalização. Acho que está mais para colonização! Qualquer dia trocaremos o nome do carnaval pra mardy gras, usaremos colares dourados e jogaremos moedas de chocolate das varandas. Reclamo e algumas pessoas me dizem: “Mas tudo isso por causa de uma brincadeira de São Valentim? Que mal tem em celebrar o amor? Relaxa! Para de ser chato.” Não é apenas um evento esporádico e ocasional: é um calendário inteiro, celebrando ano após ano, que só ganha força.

A Cultura, este ente imaterial que falamos tanto e muitas vezes é difícil de definir, está diretamente relacionada à identidade do nosso povo, às diferentes facetas da nossa complexidade. Quando perdemos a capacidade de nos relacionar com ela, de valorizar nossas raízes, de comemorar nossas ancestralidades, estamos abrindo mão de nossas identidades, do conjunto de atributos que nos transforma em quem somos. E passamos a ser ninguém! Se, numa via, damos mais valor às tradições alienígenas, estranhas, na outra mão vejo muito pouco de valorização de nossas manifestações mais brasileiras, em suas diversas expressões! Já não queremos ser nós! Quem estamos querendo ser? #Pensa