Quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2020

Conceitos

Aartigos de Domingo - 10 de Dezembro de 2017


09/12/2017 às 00:00

de massa se combate com presença ostensiva de polícia. Criminalidade organizada se combate com inteligência. Durante a semana aprendi muita coisa sobre segurança pública, na convivência com Mauro Spósito, delegado federal aposentado e especialista na matéria. A informação e o conhecimento de determinados conceitos permitem que a gente veja as questões de um ponto de vista mais abrangente – e aí quase todas as nossas certezas são questionadas.

Criminalidade de massa é aquela que acontece espontânea e isoladamente, sem redes ou conexões. João e José bebiam no bar e se esfaquearam por causa de Maria. Raimundo leva tiro do vizinho devido ao som alto. Antônio atropela três por dirigir embrigado. E por aí vai. Essa forma de crime é combatida de maneira eficiente e eficaz com a presença ostensiva das forças policiais – além, é obvio, por toda a rede de prevenção ao crime, que inclui ações de acesso à educação, inclusão social, etc.

Criminalidade organizada é aquela em rede, em “network”, com metodologia e praticada sistemática e continuamente por indivíduos em grupos. São organizações altamente estruturadas e lucrativas, são máfias, ou pra usar a palavra da moda, facções. Como uma doença, não adianta combater seus sintomas, é preciso alcançar sua origem, sua causa. E isso só se pode fazer com o uso da inteligência policial. O melhor exemplo dessa modalidade de crime é o narcotráfico: pegar um “aviãozinho” passador de “bagulho” não extingue o tráfico – ele rapidamente será substituído por outro.

Criminalidade organizada honra o nome e é viral. Ela contamina tudo aquilo que toca. Suas consequências estão bem mais presentes do que se imagina. Como nos assaltos a ônibus: qual a ligação entre o tráfico e os mais de 3 mil e 200 assaltos a coletivos que aconteceram em Manaus, de janeiro deste ano até agora? Os assaltantes, via de regra, são soldados do tráfico, ou usuários que devem à “boca”, e estão atrás de capital para pagar suas dívidas. Pegar o assaltante é necessário, mas não soluciona a questão. Todo dia um exército deles é arregimentado pelo crime organizado.

Recentemente fomos afrontados pelo foguetório em homenagem ao aniversário de 45 anos do traficante José Roberto, há duas sextas-feiras, lembram? Horas e horas de foguetes em todas as zonas da cidade. Calcula-se que, pela duração de tempo e pelo volume dos fogos, foram gastos mais recursos que aqueles empregados no Réveillon de Copacabana, no Rio. E ainda houve uma reunião na Compensa, com 3 mil participantes, para ouvir a mensagem de sua excelência o traficante. Reunião regada a churrasco e cerveja.

Pela tríplice fronteira brasileira no Amazonas – Brasil, Colômbia e Peru – passa grande parte dos R$ 15,5 bilhões do faturamento anual do narcotráfico no Brasil. Exatamente por isso, a presença tão expressiva da criminalidade organizada no Estado. Episódios como o massacre do Compaj, no início do ano, com 56 mortos e requintes de crueldade, são consequências. E crime organizado não se resolve só com polícia ostensiva. Basta lembrar que Zé Roberto, aniversariante do foguetório, está trancafiado num presídio de segurança máxima. Mesmo assim ele deu a ordem para o massacre do Compaj e para a sua comemoração de aniversário. Criminalidade organizada não é uma questão de segurança pública, é uma questão de segurança nacional. #Pensa


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