Quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2020

Coxinhas e Perrexés

Artigos de Domingo - 20.03.2016


26/03/2016 às 15:50

Quanto mais a crise se aprofunda no Brasil, menos tenho vontade de falar a respeito. Parecemos uma final de campeonato de futebol entre os dois times de maior torcida no pais, que entraram em campo com seus elencos reservas e jogam muito mal. Nas arquibancadas, as facções mais bárbaras e selvagens presentes ao estádio. É o embate entre o Clube da Arrogância e o Ódio Futebol Clube! Muito pouco se aproveita das jogadas. E se a queixa, na semana passada, era pela demonização sofrida pela imprensa, e uma possível justificativa ao limite à liberdade de expressão, aquilo que parecia ter chegado a um limite acabou dobrando a meta.

Declaradamente não nos toleramos, uns aos outros, e nos julgamos superiores e mais cidadãos do que nossos semelhantes, por uma série de motivos imbecis. Porque a sua paixão não é a minha, e a sua opinião não combina, resolvi lhe desqualificar e lhe tornar incapaz de expressar e exercer sua cidadania. Decidimos em algum momento que não queremos nos ouvir, nem praticar a boa convivência. E passamos a dividir a sociedade numa pirâmide social crudelíssima, de rótulos sem propósitos, com informações nutricionais que trazem culpa, incapacidade e segregação.

Um bom, e odioso, exemplo é a história do “coxinha”. Procurei no Google e encontrei como significado “palavra com sentido depreciativo, que indica um indivíduo conservador, que é politicamente correto e que se preocupa em adotar comportamentos que são aceitos pela maioria; muitas vezes o coxinha é uma pessoa com elevada capacidade financeira, que usa roupas de marca e que frequenta a balada.”. E eu me pergunto o que há de errado nisso?

Acabei lembrando dos torcedores do Garantido, que ao serem chamados de “perrexés” pelos contrários do Caprichoso, deram uma volta linda e disseram “somos sim, com muito orgulho”, somos cabocões, meio rudes, não negamos nossas raízes. Não havia mal algum em ser perrexé, a não ser pra quem era “colonizado”. Talvez não haja mal algum em ser “coxinha”, a não ser para aqueles que são e fingem que não! Ou que talvez sonhem em ser, mas não consigam! E o coxinha é só a ponta de um pé de porrada dos piores, que mistura gênero, orientação afetivossexual, cor da pele e local de origem e de moradia.

Todas aquelas mazelas que tanto lutamos contra, que um dia chamamos de preconceito e fomos ao público falar voltaram à tona, como fezes enormes e muito densas. Tentamos dar a descarga e não descem. A figura é feia, eu sei, mas é bem aplicável. Está funcionando exatamente assim: porque fulano é "preto" ele pensa assim; a fulana é "machuda" não poderia ser de outro jeito; aquele ali nem nasceu aqui e se acha no direito de bater panelas. Santa intolerância, onde foi parar nosso senso de coletivo? Transformamos, pela conveniência de alguns, uma discussão política em uma ode ao achaque às liberdades e aos direitos individuais.

Parecemos estar dando passos e passos atrás nos avanços alcançados nos anos 1980. Jogando fora anos de luta por direito civis. Para justificar quem fica ou quem passa a ocupar o poder. Perdemos o respeito com nosso próximo por conta disso! Será que vale a pena? Quanto mais a crise se aprofunda no Brasil, menos tenho vontade de falar a respeito. Cuidado, algumas coisas levam décadas para serem construídas e dias para ruir! Afinal, de que lado você está? De quem está ou quer ocupar o poder? O ao lado do seu próximo? A sociedade brasileira permanecerá. O poder é passageiro!


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