Sexta-feira, 06 de Dezembro de 2019

(Des)Educandos: o poder paralelo que ameaça a todos

Onde há a ausência da presença da autoridade titular, inclusive na prestação de serviços e na manutenção do espaço público, é fatal a autoridade paralela prosperar.


09/11/2019 às 12:00

Das muitas coisas que ouvi durante a semana, a que mais me chamou atenção tratou sobre a concentração de moradias flutuantes na orla de Manaus. Segundo um morador tradicional, e referência, do bairro de Educandos já são 63 flutuantes vigias e pelo menos 30 casas flutuantes, somente entre a Panair e a Ponte de Ferro. E os tais “vigias”, espécies de ancoradouros, têm uma capacidade de 30 canoas, cada. Ou seja: uma lotação expressiva que já supera a casa de milhar para moradias temporárias ou permanentes naquele trecho, sem considerar o restante da orla.
Além da relação de promiscuidade urbana que caracteriza a ocupação sobre as águas, em questões fundamentais como fornecimento de energia elétrica e água potável, esgotamento sanitário, coleta de lixo, salubridade, há um fator ainda pior: fontes do bairro falam sobre o predomínio do narcotráfico naquele intervalo de espaço. Há narrativas que novas ocupações já estão em andamento na área do “bodozal”, que sofreu o grande incêndio em dezembro de 2018, também comandadas pelo crime organizado. Caminhando da Panair em direção ao centro da cidade já se pode ver os sinais do surgimento de uma cracolândia na Manaus Moderna.
Essa nova “cidade flutuante” (a antiga foi extinta pelo então governador, Arthur Cezar Ferreira Reis, em 1967), se soma a intervenções urbanas invasivas, como a Monte Horebe e a Cidade das Luzes, e até a espaços planejados, como Viver Melhor e os diferentes Prosamins, onde as facções criminosas parecem articular um poder paralelo e dominante. Se olharmos o mapa da cidade, de norte a sul e de leste a oeste, percebemos a formação de um “círculo de fogo” que ocupa os limites de Manaus, como se ela estivesse sitiada pelos diferentes segmentos da “máfia cabocla”.
Frente à constatação, é inevitável perguntar: como se chegou a esse ponto? Que razão leva a áreas inteiras da cidade estarem submetidas, mesmo que parcialmente, ao comando de grupos criminosos, como se eles fossem a autoridade constituída? De certo não foram os moradores que delegaram a eles o poder; não houve eleição. Eles apenas ocupam o espaço oportuno gerado pela carência de políticas públicas. Talvez seja complicado de entender, mas a “Teoria das Janelas Quebradas” (James Q. Wilson e George Kelling, Chicago, 1996) permite uma compreensão simples e direta da questão.
"Considere um edifício com algumas janelas quebradas. Se as janelas não forem reparadas, a tendência é que vândalos quebrem mais janelas. Após algum tempo, poderão entrar no edifício e, se ele estiver desocupado, torna-se uma ‘ocupação’ ou até incendeiam o edifício”. “Considere uma calçada ou passeio no qual algum lixo está acumulado. Ao longo do tempo, mais lixo é acumulado. No final das contas, as pessoas começam a deixar lá seus sacos de lixo”. Esses exemplos explicam a Teoria, que foi testada na prática e hoje é aceita mundialmente. Onde há a ausência da presença da autoridade titular, inclusive na prestação de serviços e na manutenção do espaço público, é fatal a autoridade paralela prosperar.
Uma estratégia preventiva exitosa é resolver os problemas quando eles são pequenos; ser proativo nas propostas de programas. Se limparmos as calçadas no tempo certo, o lixo não acumulará. Onde o crime de pequena escala é diminuído, o crime de grande escala é prevenido. Mas numa cidade em que a paisagem urbana é repleta de “janelas quebradas”, o que se pode esperar? Se a autoridade não ocupa sua jurisdição, outros o farão! #Pensa


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