Terça-feira, 24 de Novembro de 2020

Diários de Viagens

Um medo enorme me tomou de que Manaus ficasse numa situação semelhante à que vi em Brasília: muito vazia, há horas em que parece estarmos num romance ficcional do Saramago ou do Camus.


14/11/2020 às 08:40

Semana corrida. Três dos cinco dias úteis em Brasília, a trabalho. Primeira viagem para fora do Estado depois do início da pandemia. Aeroporto de Manaus lotado, uma fila enorme para a entrada na sala de embarque. Chegamos na segunda-feira e ficamos hospedados no Setor Hoteleiro Sul, numa área com dois quarteirões que reúnem 9 hotéis, todos com cerca de 8 a 10 andares. Desses empreendimentos, apenas 4 abertos. Atravessamos a rua, em busca de uma farmácia num shopping muito popular e com uma grande parada de ônibus na frente. Demos de cara com uma média de 30% das lojas de cada piso totalmente fechadas, com as vitrines cobertas internamente com papel. Um andar intermediário com todas as operações fechadas, apenas os quiosques funcionando.

Brasília, que eu particularmente acho uma cidade encantadora e agradável, está na primavera. Chove, a humidade é alta e o verde das árvores e o colorido das flores do Planalto Central salta aos olhos, contrastando com um céu azul com mais poesia que o céu de Ícaro e de Galileu. O final de tarde pinta a paisagem de inusitados tons de rosas e laranjas em profusão e a noite traz temperaturas ainda mais amenas que aquelas registradas durante o dia. Ao contrário do que se possa pensar, os protocolos de biossegurança são cumpridos à risca. Uso de máscara em todos os lugares, distanciamento social em locais públicos, nos layouts de mesas em restaurantes, nos cafés das manhãs dos hotéis e mesmo nas praças de alimentação dos centros comerciais. Mede-se a temperatura na entrada de todos os lugares.

Com uma população estimada em 3 milhões e 55 mil habitantes, a Capital Federal registrou 3 mil 797 mortes por covid-19, o que é uma conta alta. Pegamos um carro por aplicativo e passamos pela transição entre as asas, normalmente onde ficam aqueles hotéis mais antigos, com no máximo três andares, que na fachada parecem caixas de sapatos: todos fechados, dá até pra avistar as correntes e os cadeados nas grades de ferro. Na volta pegamos um táxi. O motorista retornara ao trabalho havia três dias. Ficou desde 18 de março em casa. Não saia para trabalhar porque não tinha movimento. No telejornal matinal, relatos do crescimento exponencial do número de arrombamentos nos setores comerciais do plano piloto, inclusive com imagens. Brasília ainda está muito vazia. Há horas em que parece estarmos num romance ficcional do Saramago ou do Camus. À noite é fácil atravessar as ruas – o trânsito é mínimo.

No hotel, me aproximo das recepcionistas, troco ideias, digo que escrevo para um jornal e para uma rádio, para abrir caminho a perguntas. Sim, 5 dos 9 hotéis da área estão fechados. E o meu hotel, com 10 pisos de apartamentos, tem 23 hóspedes naquele dia. Ouço muitas lamentações. Enquanto isso, no meu WhatsApp chega a nova pesquisa do Ibge. Abro e a manchete do release salta aos olhos: “Indústria cresce 5,8% em setembro, no Amazonas, e recupera patamar de antes da pandemia”. Viajar é sempre bom, quando se tem olhos e ouvidos abertos a perceber a realidade à sua volta. Lembrei que em Manaus apenas dois hotéis encontram-se fechados: o Go Inn, que encerrou suas atividades em definitivo, e o Ibis do Distrito, bem ao lado do Novotel, que ainda não tem data para reabrir.

Voltei na quarta-feira à noite, o trabalho foi intenso e bem sucedido. Mas fiquei remoendo coisas durante todo o voo. Se eu tivesse bateria de celular, teria escrito essas mal traçadas linhas naquele momento. Um medo enorme me tomou de que Manaus ficasse numa situação semelhante à que vi em Brasília. Hoje é dia de eleição, de escolhermos os rumos da nossa capital para os próximos quatro anos. Parece inevitável ficar angustiado. As coisas aqui dão certo a gente nem sabe direito o porquê, né? Na prática, fazemos de tudo para que deem errado. É uma viagem! #Pensa


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