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Eldorado

Artigos de Domingo - 29 de Janeiro de 2017 29/01/2017 às 00:00 - Atualizado em 29/01/2017 às 09:39
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Acompanho com tristeza a volta, silenciosa e sistemática, dos ambulantes a áreas do centro de onde eles já haviam sido erradicados. E vejo ainda, com mais tristeza, nossa indiferença, enquanto cidadãos. Em 23 de fevereiro de 2014, três anos atrás, a cidade amanhecia surpresa com a retirada dos camelôs, que ocupavam a quase totalidade das calçadas da Eduardo Ribeiro e da sua confluência com a Sete de Setembro. A cidade, que se via humilhada por aquele estado de coisas, respirava aliviada e descrente: “por quanto tempo aquilo haveria de durar? Até a Copa?”

Mas o tempo passou e, gradativamente, a Prefeitura foi retirando as barracas de lona com os guarda-sóis, realocando aqueles vendedores em galerias populares e devolvendo a dignidade a áreas do Centro Histórico. Muito se falou que o lucro nos novos centros de comércio não era o mesmo. Mas a realidade da cidade era mais aterradora: pessoas com vários pontos de venda nas calçadas, barracas que serviam à distribuição de drogas (sim, muitos traficantes eram donos de pontos), outras que receptavam pequenos furtos (cordões, bolsas, carteiras). Nos acostumamos, depois de anos, a ter algumas calçadas livres, e a assistir a limpeza das ruas. Ganhamos até um novo passeio público para a Eduardo Ribeiro.

Superamos a Copa, a Olimpíada, desmentimos todos os prognósticos negativos... mas tudo leva a crer que não resistimos à última eleição municipal, onde o tema veio à tona inúmeras vezes. Desde setembro do ano passado é visível a presença mais expressiva e crescente de ambulantes justamente nas áreas saneadas. Não mais naqueles enormes casulos de lona vermelha, mas em novas formas: carrinhos de supermercado, tabuleiros, bacias de alumínio, panos no chão e carrinhos de obra. Durante a semana pude notar que eles ganham cada vez mais espaço. É uma “blitzkrieg”, uma guerra-relâmpago.

E assim a cidade vai se tornando uma grande feira livre, com verduras, legumes, frutas, hortaliças, mingau, salgados e vários outros tipos de comida comercializados em suas calçadas, indistintamente. Sorte não ter visto ainda nenhum carro de churrasco, nem de pastel e caldo de cana. Mas eles já se fazem presentes! E não há área preservada: eles estão em todos os lugares, seja na Praça da Matriz, seja ao lado do Teatro Amazonas, diuturnamente. No dia dos festejos de São Sebastião, tive a impressão de que o evento contava com a presença de maior número de ambulantes que fiéis. Até a porta da Igreja estava tomada.

Dizem que é conseqüência da crise, dos 12 milhões de desempregados pelo país... Mas essa ocupação desordenada acaba gerando mais desemprego, desvalorização dos imóveis da área, provocando queda da atratividade turística. Há um sem-número de justificativas para não se perder o controle da venda ambulante no espaço público. Até mesmo em relação à segurança alimentar, à saúde pública. Mas há aquela insistente justificativa que persevera em afirmar que é a crise. A frase mais clássica é “melhor fazer isso que roubar”. Tenho vontade de vomitar só de ouvir. Quer dizer que aquelas pessoas não tem outra alternativa: ou elas prostituem o espaço urbano ou vão roubar? Elas já estão roubando nossa dignidade urbana...

Que cidade é essa em que as pessoas, ou fazem o que elas querem, ou vão roubar? Daí, desse pensamento imediatista e mesquinho, nascem os ambulantes, os flanelinhas... quem sabe não nascem também os pequenos passadores de drogas?! Existem programas sociais para qualificação e recolocação do cidadão no mercado de trabalho. Há iniciativas de empreendedorismo para informais. Há sim maneiras mais cidadãs de tratar os ambulantes, do que simplesmente deixar eles ficarem lá e tocar o dane-se para a cidade. Uns dizem que é a crise, outros que é o desemprego. Há até quem relegue toda a responsabilidade ao ciclo migratório de haitianos e venezuelanos ... eu acho mesmo que é a política! Ou talvez a falta de boas políticas públicas! #Pensa