Sábado, 22 de Fevereiro de 2020

Em que ano estamos?

Artigos de domingo - 06.03.2016


26/03/2016 às 15:49

Meu primeiro emprego de carteira assinada foi na Biblioteca Pública do Estado. Eu tinha 19 anos, já me virava havia tempo, mas a relação de formalidade com o trabalho começou ali. Eu ainda cursava Direito e na seqüência cursaria Comunicação. Tudo era novo e desafiador. Guardo excelentes recordações daquela época. A primeira tem o nome de Lucila Claudia Brandão Gonçalves, a diretora da repartição. Uma mulher vigorosa e serena – sim, isso é possível, que desmentia qualquer mito sobre a má vontade, a morosidade e a incompetência dos funcionários públicos. Lucila era tão genial que se tornou uma referência pra mim!

E o ambiente era agradabilíssimo, com a maioria formada por mulheres. Desde a mais animada, sempre a Rute Reis, àquela que foi minha parceira durante toda minha passagem por ali, Dona Pacífica Gonçalves, mãe do João Pedro e do Paulino, uma parintinense branquinha, baixinha e sensacional. Foi ela quem me falou as primeiras coisas sobre o Festival. Lembro delas brincando entre si, falando que ficariam iguais à “Gaivota”, uma louca que vagava pelas ruas da cidade, que um dia pertenceu aos quadros funcionais de lá. Elas trabalhavam e muito, e com prazer. Parecia um formigueiro.

Saí de lá quando passei no concurso público da Empresa Amazonense de Turismo. Meu tempo se cumpriu. Mas eu já estava contaminado com a empolgação de fazer o melhor e de fazer mais que, despretensiosamente, balizava aquele grupo de mulheres. Elas talvez nem soubessem o quanto eram boas no que faziam. Em 1985, trabalhar ali era trabalhar no Google. Fiz de tudo, dos murais de informação até a organização e catalogação do acervo sobre arte, minha última missão! Acompanhei recentemente uma polêmica nas redes sociais sobre o funcionamento da Biblioteca. Aquilo me tocou profundamente, mas preferi esperar que a emoção aquietasse, para deixar o raciocínio funcionar! Nana Caymmi canta há muito que “o olhar de quem ama diz tudo o que o coração não quer (dizer)”.

O prédio da Biblioteca Pública, a principal da cidade, passou por uma reforma que o fechou por longos 5 anos. Hoje, tem horários reduzidos ao público, enquanto nos anos 80 ficava aberto até a noite! A administração do serviço argumenta falta de demanda. O público se queixa de descaso. E a polêmica está estabelecida! Já se vão 30 anos que deixei de trabalhar na Biblioteca. Mas posso concluir que o que se espera de uma biblioteca atualmente não é aquilo que se esperava em 1985.

MacLuhan profetizou que não há nada mais importante que o livro – e continua sendo, como fonte primária, que atesta, na íntegra, a origem da informação. Mas informação e conhecimento são sinônimos de poder. E o poder se renova, avança, se transforma. Tanto assim que a internet mudou as relações de acesso e difusão da informação. E se a biblioteca é um ponto de busca e recuperação da informação, ela também precisa mudar! Pensaram no prédio, mas não pensaram em um projeto voltado ao cidadão do aqui e agora. Falta demanda? Deve faltar, porque falta serviço! É como se estivessem oferecendo viagens de trem para quem quer e necessita viajar de avião!

É preciso “empoderar” a instituição, qualificá-la com o que há de mais atual em termos de tecnologia da informação, pensar formas atrativas à clientela e até, quem sabe, transferir a política editorial – inclusive de web livros e documentários áudio visuais – à sua gestão. Mas nós ainda estamos na idade da pedra, ou melhor dizendo, do prédio. Preocupados com as partes e não com o todo. Outro bom exemplo é o da Biblioteca Municipal. Fechada há seis anos, para uma reforma que sequer recebeu um prego até hoje! E o prédio sendo saqueado. Informação é poder. Precisamos ter mais atenção a ela!


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