Sábado, 06 de Junho de 2020

Exausto

A que ponto chegamos: falar, escrever, algumas vezes parece inútil! As pessoas têm seus argumentos para tudo e não querem abrir mão deles, nem mesmo frente às evidências.


09/05/2020 às 11:20

As semanas passam e algumas vezes elas parecem correr... em outras ocasiões elas se arrastam... Tenho procurado incessantemente assuntos para serem abordados, formas novas de ver o mesmo problema, mas tem sido difícil, quase impossível.

A pauta é a vida, a vida do próximo, do outro, em todos os aspectos. Nada me chamou mais atenção que a notícia da partida de um colega, ainda jovem, uns 34 anos, saudável, de morte cerebral, em razão das complicações pelo novo coronavírus. Perdi um tio, um primo (ex-marido de uma prima), amigos e conhecidos. 

Estava tentando me manter racional, estável, pouco emotivo, entretanto a ficha caiu. Caiu por uma série de razões, principalmente pelas perdas, mas há muitos outros componentes que fazem parte desse momento tão complexo e doloroso. Ouvi um conhecido, de quem até gosto e a quem considero, reclamar que está havendo um exagero, que ninguém mais morre de dengue, de malária, de infarto, de AVC, de aids. Nas palavras dele “tudo é corona, tá muito feio, não aguento mais isso”.

Fiquei tentado a argumentar. Pensei em dizer que as estatísticas oficiais só consideram aqueles óbitos que tiveram o teste positivo para covid-19, que deve haver, ao contrário do que ele pensa, uma subnotificação. Lembrei de um dado que levantei na semana passada: em dez dias, de 19 a 28 de abril, os sepultamentos em Manaus ultrapassaram a barreira de 1 mil e 200, enquanto que no mesmo período do ano passado esse número foi de 147. Eu poderia ter dito a ele muita coisa, para fazê-lo pensar, mas não o fiz.

Percebo que estamos num limite muito complicado em que quase ninguém quer ouvir, querem apenas falar e impor suas opiniões. Sim, não é algo novo, já vem de um tempo, contudo a impressão que tenho é que isso só se aprofundou. As pessoas tem seus argumentos para tudo, e elas não querem abrir mão deles, nem mesmo frente às evidências. Talvez seja tudo o que elas têm e, se perderem os argumentos, terão que ir para o caminho que elas se recusam veementemente.

Cada um tem o seu tempo de perceber, de compreender as coisas. O seu caminho de encarar a realidade, o estalo para cair na real. E forçar uma conclusão não tem se mostrado eficaz, apenas estica ainda mais a corda do cabo de guerra social. Por isso falar, escrever, algumas vezes parece inútil. A que ponto chegamos!!!

Somos o sexto país com o maior número de mortes por covid-19 no mundo – e testando muito pouco. Imaginem se tivéssemos uma base de teste maior e mais eficaz. Manaus registrou em cinco dias da semana passada 4 mil e 500 novos casos de contaminação pelo novo coronavírus.

Se tudo isso somado ao aumento absurdo de oito vezes o número de sepultamentos em Manaus não serve de evidência ao momento trágico que estamos vivendo, nada talvez sirva. Só vale lembrar que, para salvar a economia, é preciso que existam pessoas! #Pensa


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