Domingo, 09 de Maio de 2021

Exemplos

A simplicidade e a inocência também são capazes de nos salvar!


24/04/2021 às 07:59

A semana passou correndo. A impressão que tenho é que os dias voaram. E fico aguardando a vacina que ainda não veio. Parece uma realidade tão distante para quem está com 54, quase 55, sem comorbidades. Junte-se a isso a vontade enorme de sair mais de casa, interagir mais, aquela saudade continental de viajar, de poder pertencer ao mundo e não apenas à minha aldeia. Mas nada disso é muito possível no momento sem correr grandes riscos. Aí vêm a impaciência, a irritação...

O que me resta é viajar na memória das viagens realizadas, nos momentos mágicos, no pré e no pós viagem. São sempre histórias tão preciosas. Fiquei lembrando de uma série delas na semana que passou, saudoso de uma boa viagem. Lembrei muito de uma em particular, uma bem antiga, quando comentei com uma amiga professora o quão diferente era o espanhol falado na Espanha em relação aos países latinos. Lá na península Ibérica eles falam espanhol com a língua entre os dentes, um sotaque marcadamente “linguodental”, o que confere um aspecto muito peculiar ao idioma da terra-madre. E eu, com aqueles clichês babacas, falava a ela que o que se falava aqui na América do Sul nem parecia espanhol.

Ela, professora, vendo meu complexo de colônia todo à mostra, resolveu me explicar o porque dos espanhóis falarem assim, com a ponta da língua tocando a parte de baixo dos dentes incisivos. Narrou detalhada e calmamente que aquele sotaque surgiu séculos atrás, quando a Espanha teve um rei que tinha a língua presa e, por conta dessa disfunção, os súditos passaram a incorporar aquele procedimento em suas falas, ou para esconder o defeito do rei, ou para imitá-lo, já que ele, o rei, deveria ser uma referência de nobreza, um parâmetro daquilo que há de melhor. Ao fim da história, que era real e conhecida pelos estudiosos, fiquei pasmo.

Olha o poder do rei, do líder, em transformar o modo de falar de uma nação inteira e, por um tempo inimaginável, por uma simples disfunção congênita no “assoalho” da boca! Ela me explicou a força da figura do rei naquela época, já que eles, os reis, rainhas, príncipes e princesas têm supostamente o direito divino: o poder deles tem como fundamento “a vontade de Deus”. Isso mesmo, eles se utilizam da religião para se imporem e perpetrarem suas dinastias. Tanto assim que há igrejas criadas para atender aos interesses de um rei: a Anglicana, a Ortodoxa Russa...

Ela também me falou de como transportamos essa simbologia para o tempo atual, contemporâneo, mesmo muitas vezes sem percebermos. Assim nascem os grandes ditadores e tiranos. E eles também se utilizam do poder persuasivo da religião para se perpetrarem no poder. Quando não, quando sofrem essa resistência, a perseguem e dificultam ao máximo a prática religiosa. 

Daquela conversa em diante, há décadas atrás, nunca mais fiz referências colonialistas tolas de que a língua falada no país de origem é melhor, mais nobre, e outras comparações descabidas. Mas fiquei bem ciente dos estragos que um reizinho ou um caudilho tortos são capazes de fazer, e dos benefícios que uma boa educação é capaz de nos proporcionar. Educação tem a ver com liberdade.

Engraçado que enquanto eu escrevia a crônica lembrei de um conto que eu adorava quando era criança: A Roupa Nova do Rei, do Hans Christian Andersen. Fala de um rei muito vaidoso, mas tão vaidoso que foi engabelado por mercadores que lhe venderam um tecido “especial” “nobilíssimo”, invisível aos tolos. Ao venderem ao rei uma peça de tecido invisível aos tolos (que na verdade era nada, apenas uma mentira), nem o rei teve coragem de admitir que não o enxergava, por medo de se passar por incapaz de exercer o reinado. Na verdade sua vaidade o cegava.

E assim concretizaram a venda e trataram de espalhar por todo o reino a qualidade do tal tecido, que era invisível aos tolos, bla bla bla, para que no dia da apresentação do novo traje do rei ninguém ousasse denunciar sua nudez. Mas no dia do tal desfile público uma criança gritou “- O rei está nu!” e pôs a farsa abaixo. A simplicidade e a inocência também são capazes de nos salvar! #Pensa


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