Sexta-feira, 29 de Maio de 2020

Falamos sem saber!

O que faremos com os idosos e com os doentes da casa? Os jogaremos em asilos, em clínicas, para o exílio? Ou os mataremos de forma culposa?


28/03/2020 às 13:19

Passamos a semana inteira ouvindo que o grande número de mortes na Itália por covid-19 era em razão da população italiana ser muito idosa! Lá já se superou a casa dos 9 mil óbitos, e se chegou a registrar 40 mortes a cada hora! O número representa mais que o dobro de vítimas do novo coronavírus na China, sendo o maior nível de letalidade na Europa! Como o vírus tem seu principal grupo de risco em pessoas acima de 55 anos, justifica-se que a enorme quantidade de italianos velhos são o motivo da tragédia!

Cerca de 22% dos italianos tem 65 anos ou mais, sendo a idade mediana nacional de 45,5 anos. Sim, muitos idosos. Mas na vizinha Alemanha, a idade mediana da população é de 47,1 anos e 21,1% tem 65 anos ou mais; ou seja, um país tão idoso quanto a Itália! Mas para espanto da lógica simplista, enquanto 60% dos italianos acima de 60 anos são confirmados como infectados pelo  novo coronavírus, esse número na Alemanha cai para 10%. E mais importante: o número de mortes de alemães é mínimo, pouco mais de 500, embora a infecção seja enorme! Vale lembrar que a população total alemã supera em 20 milhões de habitantes a italiana.

Estudiosos apontam que a razão da grande quantidade de mortes na Itália não é apenas pela quantidade de idosos, que já vimos que é mais ou menos a mesma da Alemanha! Eles trazem à tona a questão da interação e do convívio social como principal. Filhos que moram com os pais, casais que moram com os pais, mesmo já tendo filhos. Na Itália, a percentagem de pessoas entre 30 e 49 anos que moram com os pais é de 20%, enquanto que na Alemanha é de 6,3%. Daí o contágio maior e consequentemente a maior quantidade de mortes na terra da “squadra azzurra”. Aliás, quadro que vem sendo seguido bem de perto pela Espanha, que tem os mesmo costumes no convívio social!

No fim das contas, é esse todo-mundo-junto-e-misturado do sangue latino que a gente conhece tão bem aqui no Brasil, seja por falta de condições financeiras das famílias, seja por afetividade. Nessa hora em que tanto se conclama o fim do isolamento social, que cheios de convicção muitos marcham em favor da volta à rotina, talvez seja adequado pararmos de repetir clichês que não são verdadeiros e pensar nos fatos reais! “Isolar os idosos, tratar os enfermos e voltar pra guerra”? O que faremos com os idosos e com os doentes da casa? Os jogaremos em asilos, em clínicas, para o exílio? Ou os mataremos de forma culposa? O Brasil possui 22 milhões de cidadãos com 65 anos ou mais (a Itália possui 13 milhões); 32% de sua população adulta é hipertensa, além de ser o quarto pais em diabetes no mundo! Aqui, em terras brasileiras, 6,5% dos habitantes vivem em situação de extrema pobreza – 13,5 milhões; quase metade do total geral de cidadãos não tem acesso a residências com saneamento básico; e 33 milhões de brasileiros não têm onde morar, segundo relatório do Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos. Isolamento vertical? Possibilidade ou utopia? Quanto vale a vida? #Pensa


Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.